Publicado em: 22 de novembro de 2016

“A crise ecológica nasce da nossa separação da ‘mãe natureza’. Cada elo da cadeia da biodiversidade está ameaçado de privatização e mercantilização.” Chega às livrarias italianas no dia 10 de novembro (pela EMI) La Terra ha i suoi diritti [A terra tem os seus direitos], o mais recente livro-entrevista de Vandana Shiva, que se encontrou com o papa na última quinta-feira. Publicamos um trecho do capítulo intitulado “Paz, democracia e ativismo”.

O artigo foi publicado no jornal Il Fatto Quotidiano, 03-11-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Fala-se de guerra para indicar campos de batalha como a Síria, a Líbia, a Ucrânia, o Iraque ou o Afeganistão. Mas a maior guerra que está sendo travada atualmente é contra o nosso planeta.

Poucas multinacionais tentam se assegurar do controle dos recursos da Terra, a despeito dos mais elementares limites éticos e ecológicos. A nossa água, os nossos genes, as nossas células, os nossos órgãos, os nossos conhecimentos, a nossa cultura e o nosso futuro estão diretamente ameaçados como em um campo de batalha tradicional. Não se vê a onipresença e a retórica guerreira da agroindústria? Que se torna evidente quando se mencionam os nomes dos herbicida da MonsantoRoundup (“rodeio”, “blitz”), Machete, Lasso (“laço”). As indústrias que produziam venenos e explosivos para matar durante as guerras são as mesmas que hoje fabricam produtos agroquímicos. Nos anos 1960, a Monsanto produzia particularmente o Agente Laranja, descarregado pela aviação dos EUA sobre as florestas vietnamitas durante a guerra para envenenar as árvores e as pessoas que elas protegiam.

Além dos inúmeros tumores e malformações provocados na época, muitos outros casos aparecem ainda hoje. Os pesticidas têm origem nas armas químicas: foi utilizando o cloro durante a Primeira Guerra Mundial (por exemplo, no gás mostarda), que foram postas em evidência as propriedades inseticidas dos compostos à base de cloro, mais tarde abandonados, incluindo o DDT, largamente difundido antes de ser proibido.

Depois, a engenharia genética pretendeu oferecer uma alternativa aos produtos tóxicos. Na realidade, ela incrementou a utilização de pesticidas e herbicidas. Enquanto isso, os Estados apoiam cada vez mais os grandes grupos na sua marcha rumo à apropriação dos recursos.

Surgiu um poder que coaliza Estado e indústria para impor as suas prioridades ao planeta e aos povos. Constatamos isso sem temor de contradição na Índia, onde o Exército é regularmente chamado a intervir para expropriar as populações que residem nos territórios desejados pelas empresas.

Mas o método é idêntico quando manifestantes gregos ou espanhóis sofrem os ataques das forças da ordem, mesmo que apenas denunciem uma evidência: as crises econômicas, alimentares, financeiras estão aí para demonstrar que o sistema está se esgotando e que um crescimento sem limites é impossível em um planeta com recursos limitados.

Os cientistas anunciaram que entramos em uma nova era: o antropoceno. Isso significa que as consequências químicas, urbanas, nucleares dos nossos estilos de vida ficarão gravadas nos arquivos geológicos do planeta por milhares de anos.

Porém, mesmo entre aqueles que admitem essa verdade e o dado de que a humanidade se encontra em um impasse, existem aqueles que ainda reagem de maneira belicosa, por exemplo com a geoengenharia. Eles se recusam a baixar as armas para deixar a natureza se regenerar e desejam uma luta tecnológica contra os fenômenos naturais. Projetam intervenções de grande escala para influenciar o sistema climático e retardar o aquecimento: envolver a Terra com partículas de sulfato para resfriar o planeta, inseminar os oceanos de ferro para estimular o fitoplâncton ou capturar o carbono acumulado na atmosfera.

Manipulações que são fruto de uma total falta de humildade e uma arrogância sem limites. São o sintoma de uma perversão ética e ecológica.

Quem as promove vê no ser humano, mais uma vez, o proprietário e senhor da natureza, não um elemento que simplesmente faz parte dela. Por conseguinte, defender os direitos da Mãe Terra é a luta mais importante, tanto para o ambiente quanto para os direitos humanos e a justiça social.

Levando em conta tal contexto, essa é a luta com as melhores chances de levar a paz duradoura e a uma situação de estabilidade.

Fonte: IHU-Online