Publicado em: 12 de dezembro de 2013

Estratégias de arrecadação “face-to-face” elevam quantidade de doadores e colaboram para garantir a sustentabilidade de ONGs que atuam no Brasil

Por Márcio Padrão, do BOL

Uma cena que vem se tornando comum para quem caminha pelas ruas de São Paulo é se deparar com uma pessoa simpática, que vai ao encontro do pedestre e puxa uma conversa descontraída para então se revelar um captador de doadores para alguma ONG (Organização Não Governamental). Seu objetivo é explicar à pessoa abordada a importância da causa defendida pela ONG em questão e perguntar se ele ou ela gostaria de se tornar doador fixo da entidade, via cartão de crédito.

Com o Natal se aproximando, vale a pena pensar duas vezes antes de dispensar os simpáticos sujeitos de coletes coloridos, pois eles podem ser uma chance para você fazer o bem ou contribuir com projetos humanitários.

Muitos não sabem, mas essa tática tem nome e origem no chamado terceiro setor: é a arrecadação “face-to-face” (cara a cara, traduzido do inglês) e estima-se que tenha surgido na Áustria em 1993 por iniciativa da ONG ambiental Greenpeace. Outros países da Europa e os Estados Unidos não tardaram a praticar o face-to-face devido à grande eficácia e aceitação da abordagem perante o público.

No Brasil, as entidades entrevistadas pela reportagem realizam esse tipo de arrecadação principalmente em São Paulo, mas aos poucos se espalham pelo território nacional. A Unicef também já atuou no Rio de Janeiro, Curitiba e em algumas cidades de Minas Gerais. A Aldeias Infantis SOS abrange 12 Estados e o Distrito Federal.

Resultados positivos

As organizações são unânimes ao afirmar que o face-to-face elevou significativamente a quantidade de doadores, aumentando assim a verba de suporte aos seus respectivos projetos. “Antes do face-to-face, em 2009, contávamos com 3 mil doadores no Brasil; hoje, são 40 mil”, exemplifica Victor Graça, gerente executivo de desenvolvimento institucional da Fundação Abrinq, que faz parceria com a ONG internacional Save the Children em projetos de incentivo à educação, saúde e proteção às crianças.

“Se comparado aos métodos tradicionais, como a arrecadação pela internet, a mala direta e anúncios publicitários, o face-to-face traz uma taxa mais alta de retenção de doadores, além de ser um método que mostra o trabalho da ONG a muitas pessoas”, analisa Filipe Páscoa, diretor de mobilização de recursos e comunicação da Aldeias Infantis no Brasil.

A entidade, que visa a atender crianças em situação de vulnerabilidade social cuidando delas temporariamente até que a família possa acolhê-las novamente, possui hoje 1.500 doadores no país, mas o objetivo é aumentar esse número para 30 mil até 2015. Entretanto, cerca de 60% dos recursos que chegam à ONG ainda vêm de doadores de outros países. “É curioso: apesar da crise financeira na Europa e o Brasil sendo vendido como um país próspero, os europeus seguem escolhendo o Brasil e outros países mais pobres para focar suas doações”, acrescenta Páscoa.

Os chamados captadores de doadores são profissionais remunerados que podem ser recrutados pela própria ONG – como ocorre com o Greenpeace Brasil – ou por empresas que terceirizam esse serviço, como a Appco e a International Fundraising. “Esses agentes precisam ser muito dinâmicos, proativos, ter muito boa comunicação com as pessoas na rua e ter uma atitude ética, pois o resultado do seu trabalho ajuda as ONGs a colocar em prática os seus projetos”, explica Alberto López Blanco, CEO da International Fundraising, com sede na Espanha.

As organizações garantem transparência no uso do dinheiro coletado, incluindo a arrecadação por doadores pessoas físicas. “Todo recurso arrecadado é usado nos nossos programas no Brasil e no mundo. Nós enviamos boletins trimestrais, recibo e relatório anual”, detalha Regina Gerbi, coordenadora do programa de mobilização de recursos da Unicef no Brasil.

Críticas

Mas nem tudo são flores nesse aspecto. Afinal, há quem ache que a técnica seja incômoda, pois não é raro que as pessoas abordadas pelos captadores demonstrem pressa e impaciência para parar e ouvir o que eles têm a dizer. Além disso, há a desconfiança de dar os dados do cartão de crédito, ou mesmo a impossibilidade financeira de se tornar um doador fixo. Geralmente o captador pede uma contribuição mínima – o valor varia conforme a ONG, mas fica em torno de R$ 25.

“O captador usa um tablet ali mesmo, para enviar as informações do doador com segurança. A gente explica a importância de se ter doações contínuas para manter a organização, pois o Greenpeace não conta com nenhuma ajuda de empresas, apenas de doadores físicos”, justifica Fabiana Chalhoub, coordenadora de diálogo direto do Greenpeace no país. “Dizemos que, se você não está confortável para doar assim, não doe. Também temos a forma de doação única, por meio do nosso site”, complementa Victor Graça, da Fundação Abrinq.

Já os captadores têm que se virar para chamar a atenção das pessoas nas ruas sem perder o respeito e o bom humor. “No começo a gente ouve uns desaforos, mas precisamos entender que não é assim sempre. E temos que lidar com o fato de que, das 1.000 pessoas que abordamos todo dia, só umas 200 nos ouvem e três a cinco se tornarão doadoras”, diz o captador da Unicef Kauê Freitas, 28 anos.

A reportagem acompanhou Freitas e a colega Thaina de Morais, 23 anos, durante uma hora, no período de almoço, no cruzamento da avenida Angélica com a Higienópolis, em São Paulo. Apesar de poucos de fato pararem, as pessoas que os evitavam sorriam em resposta à tentativa. “A melhor desculpa que ouvi foi de um cara que disse: ‘Não posso parar porque estou todo cagado'”, disse Freitas. “Teve outro que só parou para dizer que não estava prestando atenção no que eu dizia porque me achou muito bonita”, relembra, rindo, a carioca Thaina.

Os que pararam naquele momento elogiaram a atuação da dupla. “Foi bem descontraído. É difícil eu parar por qualquer coisa, mas ele (Kauê) conseguiu”, disse o supervisor de segurança Sérgio Aguiar. “Ele está de parabéns, me cativou bastante”, afirmou a faxineira Neide Carvalho.