Publicado em: 20 de setembro de 2018

Khalida Brohi passou a lutar pelos direitos das mulheres no Paquistão depois do assassinato de uma prima, acusada de desonrar a família; no início do mês, ativista lançou um livro de memórias

Por Aline Khouri, especial para Ponte Jornalismo

Com apenas dois anos de idade, Khalida Brohi, 29 anos, já havia sido poupada de três casamentos arranjados. Nascida em uma tribo indígena chamada Brahui, localizada na província do Baluchistão, ao sul do Paquistão, ela foi a primeira menina de sua comunidade a frequentar uma escola. Graças a seu pai, sua infância foi repleta de histórias, músicas e tradições que valorizavam a cultura local e ela possuía uma liberdade desconhecida por outras mulheres.

Enquanto estudava, suas amigas e primas casavam-se e ela observava uma alarmante diferença no tratamento oferecido a homens e mulheres. “Vi a bela tradição e a sua magia desaparecerem na minha frente quando notei que o nascimento de uma menina era recebido com tristeza”, confessou em uma palestra dada em 2014 no TED, no Brasil.

Quando tinha 16 anos, sua prima foi assassinada em um crime de honra – quando uma pessoa é morta por um membro de sua família por supostamente “desonrá-la”. O “crime” pelo qual a prima de Khalida estava sendo acusada era amar uma pessoa que a família não aprovava. Para ela foi a gota d’água: passou a ter como objetivo de vida conscientizar as pessoas sobre a crueldade da prática que mata principalmente mulheres. “Eu cresci em uma área tribal onde a honra sempre esteve associada aos homens. Sempre que ouvia falarem de alguém desonrando suas famílias, era uma mulher”, contou Khalida, em entrevista à Ponte.

Dados compilados pela Comissão de Direitos Humanos do Paquistão mostram que, na última década, foram registrados 7545 crimes de honra no país, sendo que 469 foram cometidos contra homens e 7076 contra mulheres. Esses números referem-se somente aos casos denunciados, pois há uma subnotificação desse tipo de assassinato. O Facebook foi fundamental para que Brohi fizesse um ativismo mais incisivo, já que permitiu que ela criasse a Wake Up Campaing Against Honor Killing (Campanha “Desperte Contra os Crimes de Honra”, em tradução livre) e alcançasse apoio de pessoas de todo o mundo.

Embora tenha sido acusada de propagar valores anti-islâmicos e sofrido ameaças de morte, ela não desistiu e transformou suas ações em prol das mulheres paquistanesas em sua missão de vida. Há três anos, Khalida criou a Sughar Foundation, cuja missão é empoderar mulheres de regiões tribais e rurais do país. Por meio do trabalho desenvolvido pela fundação, as mulheres aprendem técnicas de bordado tradicionais, têm acesso à educação básica e aprendem mais sobre seus direitos. O estímulo do potencial econômico, social e pessoal das mulheres auxilia a fundação a combater os crimes em nome da honra, os casamentos infantis e os casamentos que envolvem a troca de mulheres entre diferentes famílias. Até agora, cerca de mil mulheres foram beneficiadas pela Sughar Foundation. A revista Forbes ressaltou o trabalho de Khalida em uma lista de 30 empreendedores sociais com menos de 30 anos.

Participantes da oficina de bordados da Sughar Foundation, entidade para empoderar mulheres criada por Khalida | Foto: Divulgação/Sughar Foundation

No início deste mês, a ativista lançou uma autobiografia chamada I should have honor – a memoir of hope and pride in Pakistan (Eu deveria ter honra, uma memória de esperança e orgulho no Paquistão, em tradução livre), publicada pela Random House. A diretora-executiva da Sughar Foundation também administra a casa de chás The Chai Spot juntamente com seu marido, o artista e empresário norte-americano David Barron. O chai, que literalmente significa chá, pode ser tomado no Arizona, nos Estados Unidos, país onde o casal vive metade do ano. Os meses restantes são passados no Paquistão.

Confira a entrevista que Khalida deu à Ponte:

Ponte: Como você se sentiu ao saber sobre o assassinato da sua prima?

Khalida – O primeiro sentimento que tive foi raiva. Raiva profunda sobre como eu tinha recebido tanta liberdade e que, apesar da pobreza dos meus pais, eles nos mandaram para a escola, nos deram oportunidades de crescer enquanto, a poucas horas de nossa aldeia, nossa prima foi arrastada e assassinada por se apaixonar. Essa raiva foi extremamente útil e, aos 16 anos, parei tudo para lançar iniciativas para combater essa tradição.

Ponte: Você já comentou sobre a importância que o Facebook teve para se conectar com pessoas de outros países como o Canadá, a Austrália, o Reino Unido e os Estados Unidos e criar a Wake up Campaign Against Honor Killing. Qual é a importância das mídias sociais para o ativismo?

Khalida – Atualmente, as mídias sociais são mais poderosas do que o financiamento. Qualquer jovem com visão e paixão para fazer a diferença pode ficar online e expressar essa paixão! As mídias sociais se tornaram fundamentais para encontrar as pessoas que pensam como nós e que apoiariam nossas ideias. Eu realmente acredito que a minha força para criar iniciativas maiores ocorreu desde a primeira vez em que usei o Facebook por apenas 10 minutos por dia para lançar a campanha contra crimes de honra. O apoio de pessoas de todo o mundo fez com que eu percebesse que não estava sozinha e me deu coragem para fazer mais.

Ponte: De que maneira a Sughar Foundation empodera as mulheres que vivem em comunidades tribais do Paquistão?

Khalida – A Sughar, que significa mulheres qualificadas e confiantes, acredita em aumentar o potencial das mulheres ao oferecer-lhes oportunidades de se tornarem líderes em suas casas e comunidades. Em comunidades rurais selecionadas, a Sughar oferece um curso de seis meses para mulheres rurais sobre bordados tradicionais, desenvolvimento empresarial e também proporciona educação básica, alfabetização e conscientiza as mulheres rurais que desenvolvem suas habilidades para tomar decisões, contribuindo em suas vidas e na de suas famílias. A Sughar também envolve os homens em atividades de educação e conscientização para ajudá-los a compreender os direitos das mulheres de acordo com o Islã.

Ponte: Em entrevistas anteriores, você mencionou como seu pai sempre a apoiou. Em sua opinião, qual é o papel do diálogo com os homens para o feminismo?

Khalida – Um dos maiores erros que já foram cometidos ao trabalhar pelos direitos das mulheres é acreditar que capacitar os homens e envolvê-los ao lado das mulheres não é importante. Quando comecei meu trabalho, acreditei nisso e, por esse motivo, provoquei muitas reações negativas. As mulheres, nessas aldeias em que trabalhávamos, começaram a pensar de modo diferente dos homens, suas conversas se tornaram diferentes e isso logo criou enormes lacunas nos lares e os homens as impediram ir aos Centros Sughar. Foi quando começamos a envolver os homens, ajudando-os a entender quais são os direitos das mulheres de acordo com o Islã. Se eles se consideram verdadeiros muçulmanos, reconhecerão que as mulheres possuem o mesmo direito à educação e à tomada de decisões.

Mulheres paquistanesas recobram auto estima na Sughar Foundation | Foto: Divulgação Sughar Foundation

Ponte: Por que decidiu colocar este título em seu livro? O que a honra representa na sua vida?

Khalida – Eu cresci em uma área tribal onde a honra sempre esteve associada aos homens. Sempre que ouvia falar de alguém honorável, eles falavam de homens. Sempre que ouvia falarem de alguém desonrando suas famílias, era uma mulher. Posteriormente, quando esse mesmo conceito de honra e desonra tirou a vida de minha prima, fiquei indignada com essa injustiça. As mulheres são estrategicamente levadas a acreditar que são a honra dos homens, não que também possuam honra. Essa ideia está controlando e pressionando as mulheres para nunca se atreverem a fazer qualquer coisa que poderia se tornar um erro e desonrar suas famílias. Elas são induzidas a acreditar que a honra é uma herança dos homens e para mim isso é errado.  Todas as mulheres deveriam ter honra, você deveria ter honra e eu deveria ter honra.

Ponte: Como você analisa a situação das mulheres no Paquistão atualmente?

Khalida – Como venho de uma comunidade tribal, sou incapaz de definir a situação das mulheres em todo o Paquistão, mas posso dizer que as mulheres estão se posicionando e sendo vistas e fazendo a diferença. Diariamente, há uma nova história sobre jovens que desafiam normas que as isolam e restringem, todos os dias há mulheres que lutam pelo seu direito à educação e ao trabalho e existem mães que lutam para não deixar suas filhas se casarem jovens. Embora as áreas tribais e a classe média ainda possam enfrentar pensamentos e crenças conservadores sobre as mulheres, há uma mudança no horizonte e isso é belo.

Ponte: Você é casada com um norte-americano cujo país possui costumes muito diferentes do seu. Como foi seu contato com a cultura ocidental?

Khalida – Apesar de nossas enormes diferenças, David e eu nos apaixonamos devido à nossa profunda fé em Deus e nosso desejo de fazer a diferença neste mundo. Por mais que eu me tornasse parte de seu mundo, o meu o encantava. Eu me considero uma garota tribal paquistanesa e vivo uma vida repleta de cores da minha terra e costumes que aprendi na minha infância. Ele fez tudo isso parte de sua vida, desde se alimentar com a comida paquistanesa a sentar-se no chão. Juntos, também lançamos uma iniciativa chamada The Chai Spot para celebrar a minha cultura e conscientizar os norte-americanos sobre as belas tradições do Paquistão, que tragicamente são encobertas por outras notícias. O Chai se tornou um enorme sucesso, as pessoas dos EUA receberam-no com muito amor e abertura. Estamos agora no processo de abertura do nosso segundo local em Nova York.

Ponte: Qual o seu maior sonho?

Khalida – Meu sonho é chegar a um milhão de mulheres no Paquistão e nos países ao redor do Paquistão.

(Foto: Mark Leibowitz)