Publicado em: 19 de setembro de 2014

A violenta reintegração de posse do antigo Hotel Aquarius, no centro de São Paulo, ocorrida na terça-feira (16), levantou mais uma vez questionamentos sobre o papel da Polícia Militar e da Justiça no trato aos movimentos de luta por moradia. Além deles, outro ator social também merece ser cobrado por suas posturas de criminalização dos movimentos reivindicatórios: a mídia.

Nesse sentido, o Observatório publica o texto abaixo, da jornalista, mestra em Ciências Humanas e Sociais pela UFABC e militante da Marcha Mundial de Mulheres Bruna Provazi. Escrito “ao som do zunido de helicópteros e de disparos de bombas de gás lacrimogêneo”, o artigo critica a linguagem e os enfoques escolhidos pela imprensa para a cobertura, como o uso ostensivo do termo “vândalos”, para desqualificar os militantes expulsos da ocupação.

Leia:

Bombas, fumaça e vândalos: o lugar do jornalista na barricada

Por Bruna Provazi, em seu blog*

pm-violenta-senhora_G1Escrevo este texto ao som do zunido de helicópteros e de disparos de bombas de gás lacrimogêneo aqui e acolá. Não muito longe, a Polícia Militar do Estado de São Paulo executa a operação de guerra montada para remover, criminosamente, as famílias que ocupam um prédio no centro de São Paulo. É ano de eleição, e Geraldo Alckmin batalha insidiosamente pelo voto do “cidadão de bem” paulistano.

As 200 famílias que ocupavam o prédio há seis meses vão sendo varridas pra fora, deixando pra trás os poucos pertences que juntaram. São cerca de 800 pessoas que, entre comer ou pagar aluguel, escolheram a primeira opção. A imensa maioria sai de mãos abanando, outras poucas levam uma sacolinha plástica nas mãos. E daí que o prédio em questão, que já foi um hotel, estava vazio há mais de dez anos? E daí que ele estava inutilizado por causa da especulação imobiliária? E daí que essas pessoas vão pra rua? E daí que elas pertencem à Frente de Luta por Moradia, que têm reivindicações e propostas pro Estado? Na TV, o clima é de “confronto”. Criminalização dos movimentos sociais, a gente vê por aqui.

Em tom de tragédia, a Rede Globo noticia sua preocupação com os consumidores que estavam fazendo suas compras no Shopping Light, com o trânsito que foi desviado, com o prejuízo material do ônibus queimado por “vândalos” a fim de impedir que o choque se aproximasse. Não se sabe e nem se quer saber o que se passou dentro do prédio ocupado. Vez ou outra, a voz reconfortante dos repórteres anuncia que “a polícia já retirou mulheres e crianças do conflito”, e o telespectador quase acredita que tudo ocorreria na mais tranquila paz, não fossem os “vândalos” – sempre eles…

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“Jovens, alguns com os rostos cobertos, improvisam escudos em confronto”. A legenda da foto explicita de que lado da barricada o “jornalismo” da grande mídia está. Na ânsia de denunciar que jovens estão com os rostos cobertos, esquece de dizer que é justamente uma máscara de proteção contra o gás lacrimogêneo que tampa o rosto de um deles. No showrnalismo televisionado ao vivo, César Tralli é ainda mais enfático: “Podemos ver na imagem vândalos em posição de ataque”, para, apenas momentos depois, corrigir: “- de defesa”.

Mas a PM exige um esforço maior que uma narrativa insossa pra disfarçar sua truculência, velha conhecida da população preta e pobre das periferias, e popularizada democraticamente também na classe média depois de junho… Um flash ou outro do lado de fora capturam as cenas desse vandalismo de Estado. As imagens dizem mais que dez editoriais encomendados.

Pra onde estão sendo levadas essas famílias? De quem partiu a ordem pra descer o cassetete? O que vai acontecer com essas pessoas quando as câmeras forem desligadas? O telespectador continua sem resposta para as perguntas que lhe veem à cabeça, enquanto os(as) repórteres continuam tranquilamente seu rolezinho de helicóptero, felizes com a audiência alavancada por imagens espetaculares de fogo, fumaça e vândalos. Enquanto isso, Alckmin segue na liderança isolada no primeiro turno. “Ah, que saudade de junho…”.

* Bruna Provazi é Jornalista, mestra em Ciências Humanas e Sociais pela Universidade Federal do ABC e militante da Marcha Mundial de Mulheres