Publicado em: 20 de novembro de 2014

Por Nana Medeiros

Zumbi-PNG2-5Neste mês está sendo votado o Projeto de Lei que transforma o dia da Consciência Negra, 20 de novembro, em feriado nacional. A data já é marcada, no entanto, por manifestações de diferentes tipos – culturais, pedagógicas e políticas – realizadas pela sociedade civil.

Em São Paulo, a XI Marcha da Consciência Negra inclui na pauta deste ano a reforma política, a reforma da mídia, a desmilitarização da polícia, a luta contra a redução da maioridade penal e a implantação de leis antirracismo, entre outras demandas do movimento. Entre aqueles que irão compor o ato, estão envolvidos organizações e coletivos da periferia da capital.

Na opinião de Dennis de Oliveira, professor e blogueiro da Revista Fórum, o elemento racial atravessa todas as privações sociais estabelecidas pela desigualdade social no Brasil, o que inclui o acesso à educação, saúde e uma cidadania ativa. “O Brasil é um pais em que o capitalismo se estabelece num modelo de concentração de renda. Politicamente nunca interessou à burguesia um projeto de distribuição dessa renda. Em função disso, o país construiu seu projeto republicano com uma ideia restrita de cidadania e nunca universal”, afirmou em sua fala durante seminário realizado pela Fórum.

Na periferia, essa situação seria ainda mais acentuada. “É falso dizer que os jovens negros de periferia não militam. A juventude negra milita todo dia porque a luta contra o racismo é diária, 24 horas por dia”, afirma.

A cultura periférica, para Thiago Vinícius, da Agência Solano Trindade, é uma rede de proteção. Após perder o irmão, vítima de 11 tiros “da arma de um PM”, Thiago encontrou na cultura da periferia o sentimento de pertencimento que, segundo ele, o faz lutar cada dia por uma quebrada melhor. “Hoje percebo que o triângulo da morte é também o triângulo das artes, da cultura periférica, onde pulsa inspiração da literatura marginal, que inspirou saraus em São Paulo e em todas as quebradas”.

Para ele, as manifestações culturais nascidas na periferia formam uma rede muito maior, que inclui a luta por educação, por saúde e a luta do movimento de mulheres.

Semayat Oliveria, do coletivo Nós, mulheres da periferia, considera que a mulher se empodera quando tem a possibilidade de compartilhar suas dores e se fortalecer em conjunto. Construir espaços para isso, como o coletivo e o site onde disponibilizam informações sobre o tema, é extremamente necessário. Segundo Semayat, as mulheres da periferia, em sua maioria negras, saem de casa todo dia pra trabalhar e cuidar dos filhos de outras mulheres, deixando os seus próprios ao cuidados de outras pessoas, a quem tem que trabalhar duro para pagar. “Essas mulheres só saem na mídia quando elas já morreram”, afirmou.

Na opinião de Débora Maria da Silva, coordenadora do Movimento Mães de Maio, a semana de luta pela consciência negra não é o suficiente para levantar a pauta. Para ela, o dever de lutar pelos direitos da população negra não é só uma responsabilidade do movimento, mas de todos, principalmente em relação ao genocídio dentro das comunidades periféricas.

“Vivemos em um país racista em que o alvo certo é o pobre, preto e da periferia. Vemos os crimes de maio de 2006 se repetindo da mesma forma, do mesmo modus operandi e o protagonista da impunidade tem nome e sobrenome: Ministério Público. Aceitando a polícia dessa forma, o MP mata nossos filhos dez vezes mais do que quem aperta o gatilho”, afirmou.

Para Silvio Luiz de Almeida, presidente do Instituto Luiz Gama, a questão da segurança pública está muito relacionada à participação da sociedade civil nos espaços de decisão e de poder. Para ele, não teremos uma boa política de segurança publica se não houver possibilidade das pessoas mais afetadas se pronunciarem sobre o que de fato consideram importante. “Eu duvido que alguém da periferia já tenha sido ouvido sobre o que acha da segurança pública do nosso país”, afirmou.

A regulação da mídia, que visa a democratização dos meios de comunicação, é pauta da Marcha e também é defendida por Silvio como necessária para combate ao racismo. “O racismo impede às pessoas de enxergar o negro em pé de igualdade. Enquanto não houver uma democratização dos meios de comunicação, que permita participação popular efetiva, a morte da juventude periférica será legitimada e nada irá mudar efetivamente”.

(Declarações retiradas de falas durante o seminário “A periferia no Centro”, realizado pela Revista Fórum)