Skip to content Skip to sidebar Skip to footer

Operárias da Duloren, no Rio de Janeiro, rompem com o conformismo e realizam a primeira greve em 20 anos

Quem vê a belas roupas íntimas da famosa marca Duloren, não imagina as condições de trabalho que são submetidas as operárias de sua mais importante fábrica, localizada no bairro de Vigário Geral, no Rio de Janeiro, uma comunidade pobre da zona Norte da cidade. Atualmente cerca de 3 mil costureiras trabalham no edifício de 6 pisos, da principal linha de produção da Duloren.

“Costuro aqui há 29 anos e nos últimos anos só perdemos benefícios”, conta Adriana, de 56 anos. A operária explica que há 10 anos seu salário era igual ao dos motoristas de ônibus, que hoje ganham R$ 1.950 e ela R$ 907. Adriana foi uma das 2 mil operárias que participaram de uma greve no mês de maio, que pela primeira vez em 20 anos paralisou a produção de uma das maiores marcas de lingerie do Brasil.

Greve

Foram apenas dois dias de greve, mas que resultou em conquistas importantes, e também em represália. O Sindicato dos Oficiais Alfaiates e Costureiras do Rio de Janeiro, Duque de Caxias e Nova Iguaçu, informou que três operárias da fábrica, acusadas de organizar e liderar a paralisação, foram demitidas por justa causa. As costureira da ativa, no entanto, dizem que pelo menos cinco foram mandadas embora. “Eram todas funcionárias antigas, com mais de 10 anos de empresa, mulheres dedicadas, nunca faltavam, nem chagavam atrasadas. Com isso os patrões querem criar um clima de terror. Não vamos recuar, pois somos profissionais e se me demitirem hoje, sei que posso conseguir outro emprego”, afirma a jovem costureira de 29 anos e 3 de Duloren.

Poucos minutos de conversa com as trabalhadoras, no intervalo do almoço, é suficiente para perceber a ascendente consciência de classe e como a luta as tornaram mais unidas. Desde a greve de maio, as costureiras mantiveram uma intensa negociação com o sindicato patronal, que resultou em reajuste salarial de 8,5%, aprovado pela categoria em agosto e vigente a partir de setembro; e receberão um retroativo a partir de junho. O valor está bem abaixo dos 15% reivindicado pela categoria, mas comemorado como vitória, já que o reajuste não estava previsto antes da greve.

Más Condições

As operárias também denunciaram as más condições e o excesso de trabalho, perseguição e humilhação. “Estamos cansadas de tanta humilhação, perseguição e punição por qualquer coisa. É comum encontrar meninas chorando no banheiro. Trabalhamos em um clima de terror e algumas não aguentam a pressão. Isso quando podemos ir ao banheiro, porque com esse ritmo de trabalho não dá tempo nem de tomar água. Mas depois da paralisação que fizemos, o patrão começou a respeitar melhor a gente”, destaca Marcela, de 35 anos.

O estopim que culminou na revolta das costureiras foi o constrangimento sofrido por uma jovem, proibida de entrar com sua bolsa transparente, onde levava seus pertences e um pão para tomar café da manhã. “A gente não podia entrar com bolsa, até absorvente tinha que entrar na mão e ser vistoriado pela segurança. Era humilhante. Então essa foi uma das nossas principais conquistas”, conta Fátima, de 31 anos.

Revista

No entanto, teve coisas que não mudaram. “No setor onde trabalho, temos que colocar e retirar o uniforme na frente da segurança. Ela fica no vestiário observando a gente”, revela Josiane, de 40 anos. O que consta como revista disfarçada, proibida por lei. A coordenadora geral da Casa da Mulher Trabalhadora, Eleutéria Amora da Silva, afirma que “a revista íntima disfarçada é uma prática comum nas fábricas de roupas. Temos recebido muitas denúncias, só esse ano foram cinco de operárias da Duloren”, ressalta. “Além disso, muitas costureiras da Duloren estão ficando doentes, devido ao excesso e às péssimas condições de trabalho”, frisa.

Outra coisa que não mudou é o excesso de trabalho e a dificuldade em receber a comissão sobre as peças produzidas. “Nós trabalhamos com meta de produção estabelecida pelo patrão e ganhamos um bônus de 150 reais mensal. Por exemplo: tenho que produzir todos os dias 40 lotes de roupa. Posso bater a meta durante 29 dias, mas se no último dia do mês não atingir essa marca, perco tudo, ou seja, basta um dia para não receber o bônus de produção, que já é muito baixo”, desabafa Carla, de 32 anos, uma das que participaram da greve de maio.

As trabalhadoras recebem 100 reais de cesta básica; além de considerarem a quantia insuficiente, alegam que o padrão faz de tudo para eliminar o benefício. “Em caso de doença, se a gente pegar atestado por mais de três dias, perdemos o direito à cesta básica”, relata a costureira Silvana, de 38 anos, e que trabalha há 4 anos na empresa.

*Os nomes das trabalhadoras citadas são fictícios, pois temem represália.

Fonte: Caros Amigos

What's your reaction?
0Sorrindo0Lol0Ual0Amei0Triste0Bravo

Deixe um comentário

Acesse o banco de Práticas Alternativas

Conheça experiências reais que unem a justiça social, radicalização da democracia e harmonia com o meio ambiente

Encontre o Observatório nas redes sociais
Assine e acompanhe o Observatório da Sociedade Civil

    Realização

    Apoio

    Apoio

    Apoio

    Apoio

    Copyright © 2024. Todos os direitos reservados à Abong.