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No início de abril, uma pesquisa do Cesec (Centro de Estudos de Segurança e Cidadania da Universidade Cândido Mendes) trouxe dados aparentemente contraditórios sobre a percepção da população carioca sobre questões de segurança pública.

De acordo com o estudo, chamado “Olho por olho? O que pensam os cariocas sobre ‘bandido bom é bandido morto’”, 60% dos cariocas discordam da afirmação “bandido bom é bandido morto”. Por outro lado, o mesmo trabalho aponta que 73% dos entrevistados acreditam que “a defesa dos direitos humanos é incompatível com o controle da criminalidade”.

Na entrevista a seguir, Julita Lemgruber, socióloga especialista em segurança pública e uma das coordenadoras da pesquisa do Cesec, explica essa contradição e analisa qual é o recado que estes dados deixam para os ativistas de direitos humanos.

Conectas: O resultado da pesquisa foi uma surpresa?

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Julita Lemgruber

Julita Lemgruber: O resultado da pesquisa foi uma surpresa positiva no sentido de que os percentuais para a cidade do Rio de Janeiro são mais baixos do que os percentuais para o país como um todo, e mesmo do que os percentuais para a região Sudeste. Por outro lado, é claro que nos preocupa o fato de que 37% da população da cidade do Rio de Janeiro concorda com esse bordão “bandido bom é bandido morto”. Mas acho que o que nos surpreendeu positivamente como resultado dessa pesquisa foi o fato de que há muitas contradições nestes resultados. Os percentuais revelam opiniões contraditórias em relação a vários desses temas. Ou seja, quem trabalha na área de direitos humanos tem brechas para desconstruir essa lógica do bandido bom é bandido morto.

O que significa essa contradição para você?

J.L.: Desde os anos 1980, me chama a atenção o fato de que nós, ativistas dessa área, não conseguimos desconstruir esse entendimento equivocado sobre o que são direitos humanos. Se você passar os olhos nos jornais dessa época você vai ver como isso foi mal trabalhado e mal interpretado pela mídia, pelos policiais. A boa nova que essa pesquisa traz é o fato de que há brechas, que esse discurso não é monolítico. Essa condenação dos direitos humanos e essa vinculação de que quem defende direitos humanos defende bandido não é um entendimento que se expressa nas diferentes respostas que a gente colocou na pesquisa. As pessoas não confiam na polícia, então como elas vão dar à polícia licença para matar? Na pesquisa, perguntamos, por exemplo, se “os cariocas se veem como vítimas prováveis ou muito prováveis de violência policial?”. Aí, você vê claramente entre a população de pretos e pardos e entre os jovens que essa desconfiança é muito maior. Tudo nos aponta caminhos que precisamos considerar.

A pesquisa carioca contrasta com a pesquisa nacional realizada um ano antes, em que metade da população brasileira é favorável à frase “bandido bom é bandido morto”. O que explica essa diferença?

J.L.: Eu acho que essa diferença está relacionada com a desconfiança na polícia, que é muito acentuada no Rio de Janeiro. Uma população que não confia na polícia tem mais medo da ideia da execução extrajudicial, que é a mesma ideia do “bandido bom é bandido morto”. A pesquisa foi realizada entre março e abril do ano passado, período em que as UPPs [Unidade de Polícia Pacificadora] já demonstravam de forma muito evidente que a política de segurança pública do Rio de Janeiro estava em crise. Acho que isso contribuiu. Uma população que tem muita desconfiança da política de segurança pública e na polícia não vai aderir tranquilamente ao “bandido bom é bandido morto”.

Existe a percepção de que as religiões contribuem para a mentalidade conservadora. Porém, a pesquisa não parece chancelar essa visão. Existe espaço para discutir direitos humanos com os religiosos?

J.L.: Tem um belo caminho aí. Quando a gente pensa nos evangélicos, lembra da bancada evangélica no Congresso. Não! Os evangélicos estão longe de repetir esses bordões conservadores que a bancada evangélica continuamente aparece na mídia repetindo. Essas pessoas que vão ao culto com muita frequência e, principalmente, moradores de favelas, são um público com o qual precisamos trabalhar mais. É por aí que vamos encontrar caminhos para reformular a adesão a bordões do tipo “bandido bom é bandido morto”.

Essa pesquisa foi levada às autoridades?

J.L.: Essa pesquisa foi amplamente divulgada pela mídia. Sabemos que vários jornalistas tentaram repercutir os resultados com autoridades da área de segurança pública e ninguém quis se pronunciar. Vivemos um momento no Rio de Janeiro em que qualquer possibilidade de diálogo é muito difícil. O momento que a segurança pública vive no Brasil não permite que a gente realmente discuta esses resultados com autoridades da área de segurança pública.

Que recado a pesquisa traz para os governos e polícias?

J.L.: Traz o recado da falta de confiança na polícia e na Justiça. A avaliação da Justiça é ainda pior do que a avaliação da Polícia Civil e Militar. As instituições do sistema de Justiça criminal estão muito mal avaliadas e isso devia ser uma preocupação para os operadores do direito. Mas essa pesquisa também aponta para nós, ativistas de direitos humanos: há um dever de casa a ser feito. Precisamos estar atentos para não engrossar, com as nossas falas e nossas reflexões, essas noções que se cristalizaram ao longo dos anos sobre o que são direitos humanos.

Fonte: Conectas Direitos Humanos

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