Publicado em: 1 de outubro de 2014

Na próxima terça-feira, 7 de outubro, a Confederação Sindical Internacional (CSI) realizará em mais de 150 países a Jornada Mundial pelo Trabalho Decente, este ano com o lema “Justiça para os trabalhadores e trabalhadoras, Justiça climática”.

Em entrevista à Central Única dos Trabalhadores (CUT), o presidente da CSI, João Antonio Felicio, faz uma reflexão sobre o significado da jornada, que reafirma a luta pelo desenvolvimento sustentável.

De que forma a luta pela justiça climática dialoga com a luta pelo desenvolvimento sustentável?

Há, evidentemente, um vinculo direto entre a exploração de recursos naturais, contaminação e exploração da classe trabalhadora. Afinal, não é à toa que geralmente são as mesmas empresas que contaminam e/ou destroem comunidades e que também permitem que seus funcionários se encontrem em condições precárias e até mesmo de escravidão, como ocorre nos setores de mineração e desflorestamento. Precisamos pensar na defesa do meio ambiente junto a um modelo justo de desenvolvimento para todos os países, uma vez que os efeitos devastadores da poluição e das mudanças climáticas não farão com que os objetivos do trabalho decente se concretizem. Não podemos permitir que uns poucos continuem usufruindo das benesses da superexploração da grande maioria. O caminho de diálogo social construído em nosso país nos últimos anos demonstra ser o mais correto para garantir e aprofundar avanços.

Qual a importância da defesa do meio ambiente para a classe trabalhadora?

A defesa do meio ambiente é essencial para os trabalhadores e trabalhadoras, uma vez que somos os primeiros a sentir os reflexos daninhos da degradação, que impacta obviamente àqueles que estão mais expostos às substancias químicas, às condições de insegurança e insalubridade. Somos os que perdem mais anos de vida e de saúde. Por isso temos lutado tanto para que a agenda pós 2015 da Organização das Nações Unidas (ONU) assegure que o pleno emprego, o trabalho decente e os pisos de proteção social constituam pilares centrais na ação mundial.

E a responsabilidade dos governos nesta ação?

Vivemos num mundo em que a grande maioria dos governos, infelizmente, tem optado por políticas que aumentam ainda mais a desigualdade social e que ampliam as assimetrias entre países e povos, negando à classe trabalhadora o direito a um desenvolvimento sustentável. Mesmo bens comuns essenciais à continuidade da vida, como a biodiversidade, a água, as sementes, os bosques e a energia têm sido alvo da cobiça dos países centrais e de suas transnacionais, que tentam inclusive apropriar-se dos conhecimentos repassados de geração a geração para transformá-los em mercadoria. Assim, parcela expressiva das instituições internacionais apenas reproduz os interesses do grande capital, o que tem impactado negativamente na democracia e na inclusão social. Desta forma, ao invés de um modelo de desenvolvimento sustentável, que respeite o meio ambiente e os direitos dos trabalhadores e trabalhadoras, o que vemos são medidas impostas a favor do mercado financeiro e dos interesses de grandes empresas e grupos políticos vinculados a eles. Daí a importância da nossa unidade e mobilização, levando às ruas de todo o mundo no próximo dia 7 as nossas reivindicações.

Este é o espírito da Plataforma para o Desenvolvimento das Américas (PLADA), proposta pela Confederação Sindical das Américas (CSA)?

Exatamente. A PLADA aponta que o reconhecimento do princípio das responsabilidades comuns, porém diferenciadas, e as diferentes capacidades, são a pedra angular do regime internacional da mudança climática e para a superação do atual impasse. Daí porque resulta crucial a identificação dos responsáveis pelos maiores danos ao meio ambiente, pois é sobre estes que deverá recair o maior peso relativo à adaptação e mitigação do problema. Esta é uma questão chave para garantir o acesso igualitário a todos os povos a padrões mínimos de desenvolvimento, pois do contrário aceitaríamos a situação de que quem já cresceu – subindo nos degraus da devastação e da degradação ambiental – agora, poderia chutar a escada. O resultado seria, obviamente, catastrófico, com a manutenção e ampliação das históricas desigualdades e injustiças. Nas Américas, colocamos como prioridade estratégica incidir na disputa e construímos a PLADA como importante ferramenta nesta disputa. Ela é uma formulação política estratégica de médio e longo prazo que aborda a questão nas suas dimensões política, econômica, social e ambiental.

Sobre a incompatibilidade entre o atual padrão de consumo de uma pequena elite e o resto do planeta, o que fazer?

Enfrentar o consumismo exacerbado e da manutenção de padrões insustentáveis de uma ínfima minoria é uma questão chave para a classe trabalhadora pela responsabilidade que têm, junto a outros fatores, no problema das mudanças climáticas. Estas alterações do clima são algo que dialoga não apenas com a saúde e segurança, mas com a própria manutenção dos postos de trabalho. Registramos hoje os níveis de carbono mais altos da história e, sem políticas públicas e uma ação enérgica e bastante coordenada, ficará cada vez mais difícil estabilizar o aumento da temperatura. Por isso, frente à urgência de transformações que ponham em xeque o nosso próprio futuro enquanto Humanidade, defendemos uma transição justa, com a participação efetiva dos trabalhadores e trabalhadoras nos processos de diálogo e elaboração, para que as decisões a serem tomadas espelhem as reais necessidades do mundo do trabalho e do conjunto dos países envolvidos.

Neste processo, articulação e mobilização são duas faces da mesma moeda?

Para a consolidação deste novo modelo produtivo, são fundamentais as alianças com os demais movimentos sociais, unindo ecologistas, indígenas e mulheres, a fim de que, somando esforços, nossas posições reverberem e nos convertamos em referencial para todos aqueles que se dedicam à construção de um novo tempo, com melhores condições de vida e de trabalho. É este o compromisso da jornada.

Fonte: CUT

Via DIAP