Publicado em: 22 de agosto de 2013

Por Nana Medeiros

Leia o depoimento de Joselito Luz, coordenador da Associação das Pessoas com Albinismo na Bahia (APALBA), entidade que atende essa população excluída no interior da Bahia.

 

Segmento excluído

A APALBA vê de perto o problema da carência de profissionais especializados, uma vez que representam um segmento da saúde historicamente excluído principalmente no interior dos estados.

A dificuldade que enfrentamos é que os albinos necessitam, desde o nascimento, de uma assistência especial e direta das áreas de dermatologia, oftalmologia e genética e o SUS tem uma carência extrema desses profissionais. Sem falar da assistência psicológica, já que muitas mães que têm filhos albinos não estão preparadas para lidar com a doença.

Faltam generalistas

O programa Mais Médicos é polêmico porque, para a classe médica, não basta ter mais profissionais se ainda precisa de estrutura. Mas o fato é que a carência de médicos para o atendimento primordial é o mais importante, especialmente na Bahia.

Não contamos com generalistas na maior parte das regiões. Quando um município não possui profissionais médicos para atender a demanda, prevê que ele deve importar médicos de outras regiões. O SUS não possui os profissionais que precisamos. Em Salvador, por exemplo, existem apenas quatro oftalmologistas especializados em baixa visão, uma das características do albinismo.

Sem planejamento

Em minha opinião o Programa mais Médicos abrange duas questões: Primeiro, precisamos, sim, de mais médicos e segundo, são necessárias também condições de logísticas para os médicos atuarem. Por exemplo, no caso do dermatologista, o consultório e os equipamentos são necessários para atendimentos preliminares.

Nós construímos com o governo um programa de mapeamento da população albina na Bahia. O serviço público deveria saber quanto são os albinos, mas esse mapeamento ainda não existe, o que dificulta ainda mais estabelecer equipes médicas preparadas para atender esses pacientes.

A Bahia é um dos maiores estados do Brasil e não existe uma equipe preparada para definir ações de saúde necessárias.  Fizemos um acordo com o estado para criar duas unidades de atendimento especializado. Conseguimos negociar com alguns hospitais, mas o problema é que essas instituições exigem laudos médicos que devem ser dados por dermatologistas. Como proceder se os dermatologistas especializados que precisamos simplesmente não existem? Propusemos então que os laudos pudessem ser dados por um médico geral. A proposta foi aceita. A vinda de médicos para cá, portanto, facilitaria o encaminhamento desses laudos, por exemplo.

 

Dinheiro X atenção básica

O programa ajudaria pelo menos a garantir o atendimento preliminar e essencial. Desde que eu acompanho esse debate vejo que a classe médica privilegia muito o lucro decorrente de exames e procedimentos mais complexos, já que o atendimento básico não gera dinheiro para o profissional. A prevenção, que garantiria qualidade de vida e redução dos casos de emergência, é rejeitada por uma lógica capitalista dos médicos.

A maioria dos médicos que as universidades estão formando está orientando seus alunos para áreas que dão dinheiro, ou seja, ignorando as áreas que mais ajudaria a população.

Sobre os protestos dos médicos, acho que eles estão cumprindo o papel deles. Eu não tiro a razão dos médicos que estão nas ruas protestando, pois reconheço que existem problemas nos procedimentos e que há falta de estrutura necessária para trabalharem. No entanto, não se pode confundir a falta de estrutura com a falta de disposição para a questão do atendimento básico”.