Publicado em: 22 de agosto de 2013

Por Nana Medeiros

Leia entrevista com Valdevir Roth, coordenador executivo do Centro de Educação e Assessoramento Popular (CEAP), entidade que há dez anos atua com o tema da saúde pública no Rio Grande do Sul na formação de lideranças sociais para o exercício do Controle Social.

Qual é a situação do sistema de saúde no interior do Rio Grande do Sul? Há carência de profissionais? Quais os desafios enfrentados pela população?

No Rio Grande do Sul a situação não é diferente de outras regiões do país. Há muita carência de profissionais médicos, especialmente em municípios mais distantes das maiores cidades do estado como Porto Alegre, Santa Maria, Caxias do Sul etc. Porém, mesmo nas cidades maiores há falta de profissionais médicos. Claro que a insuficiência destes não é o único problema da saúde pública no Brasil, há outros problemas igualmente estruturais que precisam ser enfrentados como a falta de recursos financeiros, melhor organização regionalizada das ações e serviços de saúde, infraestrutura, cobertura da atenção básica entre outros. Mesmo assim, a questão dos médicos é, sem dúvidas, um dos maiores problemas enfrentados atualmente.

Qual sua opinião sobre o Programa Mais Médicos?

O mérito do programa está no fato de finalmente o Estado brasileiro assumir a responsabilidade de controlar uma das categorias profissionais centrais para o sistema público de saúde. Não há como construir sistemas públicos universais de saúde sem o Estado cumprir o seu papel de formar os profissionais necessários. O que tem acontecido até agora é a classe médica regulando o mercado da medicina, num corporativismo cujas consequências hoje são visíveis na ausência de profissionais interessados em trabalhar no Sistema Público. O Mais Médicos representa o primeiro passo para dizer aos profissionais nossos que se negam a trabalhar que se eles não têm interesse, o Estado brasileiro vai buscar mecanismos para atender essa demanda e não será mais a corporação que irá condenar milhares de cidadãos á falta de atendimento médico. Além disso, as mudanças previstas na formação dos profissionais são fundamentais para controlar o mercado da medicina conforme demanda pública e não corporativa.

Em algumas capitais, profissionais foram às ruas para protestar contra o programa. Qual a sua avaliação perante isso? Acredita que a falta de estrutura – um dos pontos mais criticados pelos manifestantes – não justifica a falta de médicos que atuem no atendimento básico?

Mesmo que a questão da infraestrutura seja um dos problemas da saúde pública, por si só não representa problema estrutural para a ausência destes profissionais. Rio Grande do Sul tem municípios que chegam a oferecer R$ 20 mil por mês de salário, com estrutura adequada, com ambulância equipada para encaminhamentos caso forem necessários, e mesmo assim não encontram interessados. Alguns municípios optaram em pagar o curso de medicina para seus estudantes a fim de futuramente garantir atenção médica aos seus habitantes. Então, com essa realidade é inadmissível que a classe médica seja ainda contrária à vinda de médicos estrangeiros. A infraestrutura, portanto, não é argumento para explicar a ausência de médicos, até porque se fosse isso, porque cidades polos em medicina como Passo Fundo, por exemplo, sofre com falta de médicos para trabalharem nas unidades de saúde?