Publicado em: 28 de agosto de 2018

A metodologia vem ao encontro de um esforço maior em tornar ações sociais e políticas públicas mais assertivas

Por Maíra Vannuchi

Aconteceu em São Paulo a 14ª edição do Seminário Internacional de Avaliação – Pensamento Avaliativo e Transformação Social, no último dia 15. Fundação Itaú Social, Fundação Roberto Marinho, Gife e Instituto C&A, grupo de Organizações da Sociedade Civil – OSCs que vêm refletindo conjuntamente sobre os desafios para a construção da educação de qualidade no Brasil convidaram o especialista e referência sobre o pensamento avaliativo Michael Quinn Patton, presidente da Utilization-Focused Evaluation – UFE (Avaliação Focada na Utilização, em tradução livre) nos Estados Unidos para pensar os desafios colocados à educação de qualidade no Brasil.

Considerado um dos pais da avaliação como disciplina e como campo profissional, Michael Patton foi o criador de um importante método participativo de avaliação influenciado pelo educador, pedagogo e filósofo brasileiro Paulo Freire e que é reconhecido e utilizado amplamente mundo a fora.

Hugo Barreto da Fundação Roberto Marinho, citando o legado do Instituto Paulo Freire nos processos avaliativos dialógicos e comprometidos com a transformação social, enfatizou o desafio e importância de que as OSCs desenvolvam mecanismos de mensurar a eficácia, eficiência e capacidade de transformar de suas ações. Hugo coloca que mais do que o desejo de mudar, é necessário ter a capacidade: “A habilidade de oferecer respostas às questões que nos angustiam depende de constituir mecanismos de avaliação no dia a dia para poder medir o que fomos ou somos capazes de fazer”.

O pensamento avaliativo, segundo ele, propõe algo extremamente necessário para a transformação social, pois permite levantar dúvidas sobre a ação, analisar as contradições e implementar uma cultura de pensamento crítico sobre os processos e, que uma vez que dialogados em busca de respostas, possibilitam a aprendizagem e o aprimoramento da atuação.

Patton alerta que a avaliação não pode ser engavetada, mas deve ser uma ferramenta utilizada para o que serve: aprender e tomar decisões.

Segundo o autor, o pensamento avaliativo é baseado na diretriz freiriana de que em todas as interações e atividades que nos envolvemos há aprendizado. “O pensamento avaliativo começa com perguntas em determinada situação em que pessoas possam se reunir, pensar, debater, criar processo dialético de avaliação”, conta. A metodologia propõe a construção de condições para formular questões e trabalhar descobertas sobre as ações, para que o seu impacto seja transformador. Para tanto, é necessário que haja um olhar de avaliação durante a gestão dos programas, para possíveis correções de rota. Seu objetivo é fazer uma interação entre os envolvidos no projeto, criando um cenário em que todos se beneficiam tanto do processo avaliativo como de seus resultados.

A metodologia vem ao encontro de um esforço maior em tornar ações sociais e políticas públicas mais assertivas. “A avaliação é afetada pelo engajamento dos atores envolvidos. Estar envolvido no processo cria um diálogo. O pensamento avaliativo não é uma política empresarial ou social, é algo a se usar no dia a dia para tomar melhores decisões”, disse Patton.

Usando a imagem de um caleidoscópio, defende que uma avaliação focada na utilização prevê capacidades e competências múltiplas, levando em conta a complexidade do mundo e necessita para isso de uma abordagem sistêmica.

Os princípios da metodologia:

  • Pensamento avaliativo — não é uma pesquisa estática, mas um processo que caminha desde a implantação da ação social, trazendo reflexões críticas que se desdobram em tomada de decisão e mudanças incrementais ao longo do percurso;
  • Avaliação baseada em princípios — guias que servem de balizas para alcançar os objetivos almejados;
  • Utilização de métodos mistos — combina diferentes abordagens qualitativas e quantitativas para se ajustar às distintas necessidades do contexto;
  • Influência do pensamento de Paulo Freire — baseado na construção de um processo dialógico, horizontal e orgânico.
Características da avaliação focada no uso
Objetivos – Apoiar o desenvolvimento de inovações e adaptação de intervenções em ambientes dinâmicos;

– explorar possibilidades, gerar ideias e as experimentar;

– promover inovação e desenvolvimento contínuos.

Métodos utilizados – Focada na utilização;

– métodos escolhidos em serviço para uso no desenvolvimento;

– derivam de considerações pragmáticas;

– julgamentos sobre a qualidade metodológica são contextuais e intencionais.

Papel do avaliador – Flexibilidade metodológica, ecletismo e adaptabilidade;

– pensamento sistêmico: criativo e crítico;

– alta tolerância à ambiguidade;

– capacidade de trabalhar em equipe, de facilitar a reflexão baseada em evidências.

Usos indicados – Fornecer feedback;

– gerar aprendizados;

– apoiar ações no processo de desenvolvimento.

Fonte: Developmental Evaluation: Applying Complexity Concepts to Enhance Innovation and Use, de Michael Patton. Guilford Publications, 2010.

(Foto: Pedro P. Bocca)