Publicado em: 26 de outubro de 2018

‘As universidades são historicamente um pólo de pensamento crítico, resistência e organização. Na ditadura militar uma de suas primeiras ações foi contra os estudantes’, afirmou Leonardo Guimarães, da União Nacional dos Estudantes em entrevista ao Observatório

Por Lorena Alves, do Observatório

Na véspera do segundo turno presidencial, mais de 20 universidades no Brasil, em 9 estados diferentes, sofreram ataques de censura por agentes do Estado. Policiais Federais, fiscais e Policiais Militares invadiram aulas e atividades sobre violências nas eleições, fascismo, democracia e fake news, além de impedirem reuniões dos estudantes e apreenderem materiais, que na prerrogativa usada pelos juízes, constituem campanha eleitoral.

Na terça-feira (23) policiais invadiram a Universidade Federal Fluminense (UFF), em Niterói, para retirarem uma bandeira antifascista, colocada em frente ao prédio de Direito. Fiscais do Tribunal Regional Eleitoral (TRE), escoltados pela polícia militar, retiraram a bandeira alegando ser propaganda eleitoral indevida. Na quinta-feira (25), em uma evidente violação da autonomia universitária, o juiz Rubens Witzel Filho emitiu um mandado de notificação proibindo a realização de uma aula pública sobre fascismo na Universidade da Grande Dourados (MS).

Na Universidade do Estado do Pará (UEPA), enquanto explicava sobre fake news aos estudantes, na disciplina de Mídias Sociais, um docente teve sua aula invadida por PMs armados que ameaçaram prendê-lo.

Estes são apenas alguns exemplos dos casos que estão ocorrendo no Brasil. Ataques contra professores e estudantes universitários não são novidade em regimes autoritários. “As universidades são historicamente um pólo de pensamento crítico, resistência e organização. Na ditadura militar uma de suas primeiras ações foi contra os estudantes, seja queimando a sede da UNE, seja impedindo a livre organização dos estudantes via decreto”, afirma Leonardo Guimarães, diretor de Universidades Públicas da União Nacional dos Estudantes (UNE), em referência ao golpe de 1964 que instaurou um regime ditatorial que durou 21 anos.

A Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), que teve seu campus invadido pelas forças de repressão em 1977, se manifestou nesta quinta-feira (25) em repúdio ao que fere a democracia. Em nota publicada em sua página no Facebook, a faculdade declarou “repudiar toda manifestação de ódio, intolerância e constrangimento de qualquer ordem, contrária à igualdade individual e coletiva, política, econômica, social, racial e de gênero, do conjunto da população brasileira, conforme o que estabelece a Constituição”.

“Quando policiais armados invadem universidades públicas sem mandado para retirar faixas, dizeres e impedir assembleias, que não fazem menção a nenhum partido ou candidato, temos certamente que disseminar o que está acontecendo no Brasil e dizer que a democracia corre sim um risco”, alerta Guimarães, em entrevista ao Observatório. Leia abaixo a íntegra da entrevista:

 

Como você avalia a invasão dos agentes do Estado nas universidades em todo país? O que essas ações representam ao movimento estudantil em relação a autonomia universitária?

Os Tribunais Regionais Eleitorais dos estados têm nas últimas semanas agido de uma forma absolutamente arbitrária dentro das universidades. Esses espaços, que sempre foram espaços de resistência, vêm enfrentando uma série de sanções tanto nas assembleias estudantis ditas contra o fascismo, quanto nas faixas contra o fascismo, inclusive uma faixa de “Marielle Vive” foi retirada pelo TRE e está sendo retirada em várias universidades do país em ações arbitrárias. Eles colocam qualquer campanha antifascista como se tratasse de uma campanha anti-Bolsonaro. É claramente uma arbitrariedade. Inclusive, algumas sessões da OAB, como a do Rio de Janeiro, já consideraram ilegais essas ações.

É possível fazer um paralelo da censura que as universidade vêm sofrendo com as ações que ocorreram na ditadura militar?

As universidades são historicamente um pólo de pensamento crítico, resistência e organização. Na ditadura militar uma de suas primeiras ações foi contra os estudantes, seja queimando a sede da UNE, seja impedindo a livre organização dos estudantes via decreto. Certamente esse momento final da campanha presidencial, que acontece hoje no país, é um momento de virada de uma disputa acirrada. Colocaram para o lado de lá que um dos alvos deveria ser também esse pólo de resistência e organização que são as universidades públicas. Então, o sentimento de parar a resistência e organização hoje é muito próximo em relação a ditadura militar.

Você enxerga que esses ataques irão influenciar nas eleições de domingo e, independente de quem ganhar, nas mobilizações do próximo período?

Estamos vivendo uma escalada crescente de autoritarismo no Brasil. Certamente essa campanha presidencial tem tratado muito sobre a questão democrática no Brasil. Portanto, quando policiais armados invadem universidades públicas sem mandado para retirar faixas, dizeres e impedir assembleias, que não fazem menção a nenhum partido ou candidato, temos certamente que disseminar o que está acontecendo no Brasil e dizer que a democracia corre sim um risco. Honestamente eu espero que isso influencie nos resultados eleitorais de domingo, mas independentemente do resultado já se avizinha da gente um momento de ascensão a partir da Justiça do autoritarismo. Então, vai ter resistência, vai ter luta e estamos a todo momento organizando os estudantes das universidades públicas e particulares para dizer “Não!” a essa escalada de ódio e autoritarismo.

(Foto: Reprodução)