Publicado em: 8 de novembro de 2016

Em uma fase em que a emergência também e principalmente nos países avançados é o aumento da desigualdade e a erosão daquela que era considerada a classe média, há um paradigma alternativo de crescimento que é um “win win”, enriquece a sociedade e contribui para reduzir as desigualdades, pois se baseia na partilha.

A reportagem é de Luca Mazza, publicada no jornal Avvenire, 23-10-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

“Desenvolvimento Feliz” está se manifestando em pelo menos quatro âmbitos na Itália: nas realidades da economia civil que forma grande parte do terceiro setor, no mundo das empresas com fins lucrativos que pretende ir além da responsabilidade social empresarial, em partes avançadas do público e, de modo informal, também na sociedade civil, com os cidadãos que se auto-organizam.

Walter Stahel dirige o mesmo carro há 47 anos. É um Toyota Corona Mark II 1900. Ele o comprou em 1969, na Suíça, onde ainda vive, pagando 12 mil francos por ele. Hoje, o veículo tem um valor de mercado de 15 mil francos, porque, enquanto isso, tornou-se um carro de época, daqueles de coleção. Mas Stahel certamente não é um entendido ou um apaixonado por motores. Ele também não decidiu se apegar ao veículo durante décadas por possuir um faro aguçado pelos negócios. Afinal, ele mesmo admite que não previu que o preço do bem, depois de quase meio século, ainda seria relevante. A sua escolha foi (e é) ética, ligada a um modelo econômico em que ele acredita profundamente. Stahel, de fato, é arquiteto e professor de economia que, em 1982, fundou o Product Life Institute, em Genebra. Mas é sobretudo um dos “pais” da economia circular.

Querendo simplificar ao máximo, seria possível dizer que o paradigma “circular” se contrapõe ao “linear”, praticado na economia atual. Para explicar a diferença principal entre as duas “filosofias”, Stahel se vale de uma metáfora.

“A economia linear é como um rio que tem o objetivo de fazer crescer esse curso de água com fluxos de materiais. E o seu sucesso é medido pelo PIB”, afirma o professor. “A economia circular, ao invés, é mais parecida com um lago e deve ser avaliada com base na qualidade e na quantidade do seu patrimônio, que é composto por capital natural, humano, cultural e pelo capital construído (as infraestruturas). O problema, porém, é que não possuímos estatísticas para medir a massa dessa água doce.”

Mas o que tem a ver o carro de Stahel com a economia circular? “Quando se repara ou se reforma algo, cuidando disso, portanto, faz-se uma ação que se enquadra na lógica da economia circular, em que se evita destruir para refabricar do zero e se tende a utilizar pelo máximo de tempo possível aquilo de que já se dispõe. Tal comportamento cria círculos virtuosos que beneficiam a economia local”, responde o professor suíço.

“Voltando ao meu carro, por exemplo, eu analisei os custos incorridos desde que eu o comprei e descobri que dois terços dos custos totais de manutenção foram empregados em mão de obra, não em materiais. Desse modo, dentre outras coisas, financiei a economia local e não o trabalho humano de baixo custo da China ou de Bangladesh.”

Outra imagem eficaz para representar o sentido da economia circular é dada pelo dinheiro. “Pense-se em uma nota de dinheiro que passa de mão em mão continuamente todos os dias”, diz Stahel. “Pois bem, ninguém pensa que uma nota de 20 euros vale menos do que 20 euros apenas porque foi utilizado milhares de vezes. O mesmo pode valer para muitas outras coisas: edifícios, carros, objetos.”

Para além das boas práticas – sejam elas pessoais ou coletivas –, para o professor, ainda não há passos significativos para que se comece um processo de inversão entre os dois modelos econômicos. “Hoje, para medir o sucesso da educação, levamos em conta o dinheiro gasto nesse setor: dos salários dos professores aos livros escolares adquiridos pelas famílias – explica –, mas, depois, não conhecemos qual é a qualidade dos resultados em cultura e saber diante desses investimentos.”

A quem cabe a tarefa de modificar as regras do jogo? “À política. A indústria não quer mudar, até porque não lhe convém, e os cidadãos não têm a possibilidade disso. Portanto, são os governos que devem modificar a organização. A partir dos impostos. Hoje, a linha em vigor é a de dar subsídios a quem produz energia ou materiais e taxar o trabalho, quando deveria ser o contrário. No médio e longo prazo, seriam obtidos benefícios significativos.”

De acordo com um estudo recente realizado em sete países europeus, deslocando os impostos do trabalho aos materiais e à energia, as emissões de CO2 diminuiriam em média 70% em comparação com um aumento do emprego de 4%. “Invertendo o sistema de tributação, as vantagens em nível de sustentabilidade viriam automaticamente, mesmo sem leis ad hoc de proteção ambiental.”

Outra mudança de direção necessária, além disso, é de matriz cultural. “É preciso passar do domínio da venda de uma mercadoria material para a da prestação de um serviço, eliminando o fator moda e fazendo prevalecer a utilidade”, é a receita de Stahel.

“Se os gigantes automobilísticos ou da moda vendessem apenas o uso de um carro ou de uma bolsa em vez da sua propriedade, veriam a extensão do lucro ao longo de um arco temporal mais longo do que agora, em que há apenas o momento da transação à concessionária ou à loja”, continua. “Não só: as indústrias dos vários setores trabalhariam para fazer com que os produtos durassem o máximo possível, sem desenfornar novos modelos continuamente, a fim de criar tendências e vender mais mercadorias.”

A revolução, porém, custa a decolar. “Até porque, hoje, na economia circular, foi acionado o silenciador. O sapateiro, o carpinteiro, assim como a oficina que conserta carros estão excluídos do grande circuito da publicidade. Na sociedade midiática, aqueles que vendem o novo esmagam aqueles que se esforçam para ajustar o existente.”

Porém, embora o modelo econômico não as leve em consideração de modo adequado, essas realidades que têm a intenção de proteger a integridade daquilo que já temos continuam resistindo. Stahel, dirigindo o seu Toyota 1969, consegue vê-las nitidamente, apesar de estarem envoltas na escuridão.

Fonte: Revista IHU On-Line