Publicado em: 17 de maio de 2017

Resistência e reorganização da sociedade civil em tempos de golpe foi o tema de aula pública organizada pela Abong em Florianópolis após um ano do afastamento da presidenta Dilma Rousseff

Por Kaique Santos e Nicolau Soares, do Observatório

Na mesa, da esquerda para a direita, Vítor, Eleutéria, Kerexu e Douglas (Fotos: Maíra Vannuchi)
Na mesa, da esquerda para a direita, Vítor, Eleutéria, Kerexu e Douglas (Fotos: Maíra Vannuchi / Abong)

Na última segunda-feira (15), a Associação Brasileira de Organizações Não Governamentais (Abong) realizou, na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), a Aula Pública “Resistência e reorganização da sociedade civil em tempos de golpe”. No momento crítico que vive a democracia no País, os/as militantes Douglas Belchior, da União de Núcleos de Educação Popular para Negras/os e Classe Trabalhadora (Uneafro), Kerexu Yxapryry, do Centro de Formação Tataendy Rupa, e Vítor Guimarães, do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), discutiram a necessidade de rearticulação das forças de resistência contra a perda de direitos.

Douglas Belchior afirmou que a crise política está na direção da esquerda e alertou que quando ela passar, existe a necessidade de mudanças dos/as parlamentares que conduzem o processo neste campo. “A direção política do campo social que vai lutar por justiça para todos é encabeçada pelo mesmo grupo social, político, econômico e racial que criou a escravidão. Quando passar o furacão, quem vai conduzir o processo da esquerda? Serão os de sempre ou serão os negros, as mulheres, os gays e os índios que se levantaram agora?”, questionou.

A fala vem após a citação das constantes e muitas mortes do povo negro e dos recentes ataques aos indígenas, como o massacre do povo Gamela, que aconteceu no fim de abril, no Maranhão.  “Todo mundo sonhava que, com direito garantido pela Constituição de 1988, não existiria mais a violência, mas foi uma decepção. Hoje a gente está lutando para não perder o que a gente garantiu e para ir atrás do que não conquistou”, declarou a cacique Eunice, ou Kerexu Yxapryry.

A coordenadora do Programa de Política e Direitos Socioambientais do Instituto Socioambiental (ISA) e diretora executiva da Abong Adriana Ramos também reforçou que o Brasil passa por um período de retrocessos após o afastamento da presidenta Dilma Rousseff (PT) em 12 de maio do ano anterior, principalmente quando se fala da questão indígena.  “O último ano foi de vale tudo em Brasília. Governo e Congresso estão alinhados no objetivo de desconfigurar os direitos dos povos indígenas e das comunidades tradicionais, especialmente os quilombolas, assim como a legislação ambiental, em especial o licenciamento ambiental”, diz.

“Temos militantes no Brasil inteiro sendo processados. Eu respondo a um processo de agressão contra um policial por um tiro que eu levei”, relatou Vítor Guimarães quando o assunto era a criminalização dos movimentos sociais, importantes na luta por direitos e por democracia. “Ou a gente resiste ou a gente vai morrer. Nós vivemos há 517 anos o genocídio de um povo. São 13 mulheres mortas e 63 jovens negros mortos por dia no Brasil. Temos 600 mil pessoas encarceradas. Falar em golpe ou em crise é entender que o Brasil é uma crise permanente contra uma parte da população”, ressalta Vítor, que também criticou as reformas previdenciária e trabalhista propostas por Michel Temer (PMDB), que se tornou oficialmente presidente do País após o impeachment de Dilma. Temer tem rejeição de 87% dos/as brasileiros/as, de acordo com pesquisa Ipsos.

A Aula Pública foi mediada pela também diretora da Abong e coordenadora geral da Casa da Mulher Trabalhadora (Camtra) Eleutéria Amora. Na mesma segunda-feira, antes deste evento, que foi aberto ao público, a Abong organizou a oficina “Sustentabilidade Política e Econômica das OSCs e Movimentos Sociais”.