Publicado em: 5 de junho de 2019

A quem beneficiará tal reforma? Já sabemos, pela experiência do Chile: aos bancos, às administradoras de fundos de pensão, que ganharão bilhões, enquanto os aposentados perderão

Por Ivo Lesbaupin

Nós percebíamos que a economia estava mal, agora está confirmado pelo IBGE. Também ficamos sabendo que o principal responsável pela queda da atividade econômica é o governo, que reduziu o investimento. Sem investimento, não há como gerar emprego. Traduzindo: não é apenas que o governo nada fez, o governo está produzindo a queda, está, conscientemente, promovendo o desemprego.

Com que objetivo? Só para conseguir a aprovação da sua Reforma da Previdência. O Ministro da Economia explicita publicamente de que se trata de uma chantagem: o governo tem meios de ativar a economia – com a liberação do FGTS -, mas só vai fazê-lo depois de aprovada a reforma!

Traduzindo: “Nós podemos melhorar a vida de vocês, caríssimo povo brasileiro, mas não vamos fazer nada enquanto vocês não aprovarem a minha reforma, talkey?”

A reportagem do jornal O Globo é clara: “O ajuste fiscal ainda em curso impede o aumento do gasto público para estimular a economia” (31/05/2019). Quem decidiu continuar com o ajuste fiscal, apesar de a economia estar mal das pernas? O governo.

Todo mundo sabe que, com ajuste fiscal, não há crescimento. Portanto, estamos indo para o “fundo do poço” por decisão de cima, das principais autoridades do país. Autoridades – que foram eleitas para tirar o país da crise e melhorar as condições de vida – estão quebrando o país.

Em segundo lugar, é verdade que a reforma da previdência de Paulo Guedes vai alavancar a economia? Mesmo que seja aprovada rapidamente e implementada a partir de 2020, os gastos na previdência continuarão os mesmos por três anos. Só então começará a aparecer alguma mudança, mas para pior. Se for aprovada como foi proposta, significará redução de aposentadorias e pensões para a maioria. Portanto, menos dinheiro nas mãos das pessoas, isto é, menos mercado interno e, consequentemente, menos emprego.

Além disso, há algo mais grave. A tal reforma pretende nos tirar do regime de repartição (que tem financiamento garantido, trabalhadores, empregadores e Estado) para o regime de capitalização (onde só o trabalhador contribui). Ela terá um altíssimo custo de transição: segundo cálculos do próprio governo, gastos de 1 trilhão nos próximos 20 anos (na maioria dos países que adotaram a capitalização, estes custos foram duas a três vezes o que havia sido previsto). Então, ganharemos 1 trilhão em 10 anos e perderemos 1 trilhão em 20 anos. Sobrará algum ganho, mas não é nada significativo como quiseram nos fazer crer.

A quem beneficiará tal reforma? Já sabemos, pela experiência do Chile: aos bancos, às administradoras de fundos de pensão, que ganharão bilhões, enquanto os aposentados perderão.

E, finalmente, pergunta que não quer calar: por que uma reforma que muda a Constituição e mexe com a vida de todos os 210 milhões de brasileiros tem de ser aprovada a toque de caixa (inclusive com compra de votos de parlamentares), sem debate amplo com a sociedade?

Por que não temos acesso aos cálculos utilizados pelo governo para propor esta reforma?

Por que não podemos ouvir o(s) outro(s) lado(s) para poder comparar com a reforma proposta?

Quem sabe não haveria proposta(s) muito melhor(es) do que aquela que o governo apresentou?

(Foto: Divulgação)