Publicado em: 25 de setembro de 2017

Nesta segunda (25), Oxfam Brasil divulga o relatório “A Distância Que Nos Une” sobre a desigualdade socioeconômica brasileira

O debate público sobre a redução das desigualdades no Brasil é urgente e necessário. Hoje, uma pessoa que receba um salário mínimo mensal teria que trabalhar durante 19 anos para ganhar o salário de um mês de um brasileiro que faz parte do privilegiado grupo do 0,1% mais rico do país. E mais: apenas seis pessoas têm uma riqueza equivalente ao patrimônio dos 100 milhões de brasileiros mais pobres, metade da população. Os 5% mais ricos do país ficam com a mesma fatia de renda que os demais 95% da população.

Essa é uma situação insustentável e injusta. Mas também reversível. É o que revela o relatório “A Distância Que Nos Une”, lançado hoje pela Oxfam Brasil. O documento apresenta dados sobre a desigualdade socioeconômica brasileira e os caminhos possíveis para se ter um país mais justo e livre de tantos desequilíbrios sociais.

“Precisamos falar sobre nossas desigualdades e os caminhos existentes para reduzi-las”, afirma Katia Maia, diretora da Oxfam Brasil. “Se no mundo a desigualdade já nos causa espanto, no Brasil essa situação é ainda mais dramática. Esse relatório é a nossa contribuição para o importante debate sobre a redução das distâncias em nossa sociedade.”

Ao longo das últimas décadas, o Brasil conseguiu elevar a base da pirâmide social, retirando milhões da pobreza. “Apesar de avanços, nosso país não conseguiu sair da lista dos países mais desiguais do mundo. O ritmo tem sido muito lento e mais de 16 milhões de brasileiros ainda vivem abaixo da linha da pobreza”, explica Katia Maia. E as estimativas para os próximos anos não são nada alentadoras. Segundo o Banco Mundial, só em 2017 até 3,6 milhões de pessoas devem cair outra vez na pobreza.

Para a diretora da Oxfam Brasil, essa situação é inadmissível e precisa ser enfrentada por todos para que realmente seja solucionada. “Existe uma distância absurda entre a maior parte da população brasileira e o 1% mais rico, não apenas em relação à renda e riqueza, mas também em relação ao acesso a serviços básicos como saúde e educação. Atacar essa questão é responsabilidade de todos. Há inúmeras ideias e propostas circulando, algumas até formam consenso na sociedade. A única coisa que não se pode fazer é ignorar o problema e não fazer nada. Estamos juntos no mesmo barco.”

O debate proposto pelo relatório “A Distância Que Nos Une” da Oxfam Brasil é urgente não apenas pela situação de desigualdade extrema mas também pelo recente e preocupante retrocesso em direitos que o país vive, nunca visto desde a reabertura democrática do Brasil. A desigualdade é um dos maiores obstáculos para continuar reduzindo a pobreza no país.

“Toda a trajetória de redução de desigualdades que vinha sendo seguida desde a proclamação da Constituição de 1988 foi interrompida, e estamos dando muitos passos para trás na garantia de direitos à população. Enquanto isso, a concentração de renda e patrimônio continua intocável. Se não enfrentarmos essa situação, vai ser ruim para todos no país – mas principalmente para quem pouco ou nada tem para se proteger”, afirma Rafael Georges, Coordenador de Campanhas da Oxfam Brasil.

Nos últimos 20 anos, há vários fatores que explicam as desigualdades no Brasil e pouca dúvida sobre o que não deu certo: o sistema tributário regressivo, que pesa muito sobre os mais pobres e a classe média; as discriminações de raça e gênero que promovem violência cotidiana aos mais básicos direitos de mulheres e negros; a falta de espírito democrático e republicano do nosso sistema político, que concentra poder e é altamente propenso à corrupção.

Mas temos também relativa segurança sobre o que dá certo: expansão de políticas públicas, em especial as sociais, para reduzir pobreza e aumentar renda familiar; investimento em educação para reduzir diferenças salariais; ampliação da cobertura de serviços para os mais pobres; política de valorização do salário mínimo, formalização do mercado de trabalho e queda do desemprego.

Com o relatório “A Distância Que Nos Une”, a Oxfam Brasil pretende contribuir e apresentar soluções ao debate sobre as desigualdades no Brasil, destacando que todas as pessoas, independentemente de sua classe social, sofrem as consequências. A desigualdade extrema gera conflito social, aumenta a violência e cria instabilidade política. “O Brasil só poderá dizer que é realmente um Estado democrático de direito se oferecer condições melhores para sua população. E isso não vem acontecendo”, “As desigualdades entre pobres e ricos, negros e brancos, mulheres e homens não são um problema de poucos, mas um problema de todos. Esta é a distância que nos une”, define Oded Grajew, presidente do Conselho Deliberativo da Oxfam Brasil.

 

Outros dados:

  • Uma pessoa que recebe um salário mínimo mensal levaria quatro anos trabalhando para ganhar o mesmo que o 1% mais rico ganha em média, em um mês, e 19 anos para equiparar um mês de renda média do 0,1% mais rico.
  • Mulheres terão equiparação de renda com homens somente em 2047 e negros ganharão o mesmo que brancos somente em 2089, mantida a tendência dos últimos 20 anos.
  • Levaremos 35 anos para alcançarmos o atual nível de desigualdade de renda do Uruguai e 75 anos para chegarmos ao patamar atual do Reino Unido, se mantivermos o ritmo médio de redução anual de desigualdades de renda observado desde 1988.
  • Seis brasileiros possuem a mesma riqueza que a soma do que possui a metade mais pobre da população, mais de 100 milhões de pessoas.
  • O potencial de arrecadação na esfera federal poderia aumentar cerca de R$ 60 bilhões por ano, o equivalente a duas vezes o orçamento federal para o Programa Bolsa Família, quase três vezes o orçamento federal para a educação básica, considerando reversão de isenção sobre lucros e dividendos, sobre lucros e dividendos ao exterior e juros sobre capital próprio.

O relatório está disponível aqui.

Fonte: Oxfam Brasil

(Foto: Marianne Ortelli)