Publicado em: 14 de novembro de 2019

‘No Brasil não existe um espaço para falar dos imigrantes, mostrar nossos talentos e capacidades, então, criamos a associação para mostrar que não viemos só para buscar trabalho, mas também organizar coisas boas’, diz presidente da AHRS

Por Daniela Silva Huberty, da Cardume(*)

A presença de imigrantes no Brasil é notada em muitos estados. De norte a sul, à medida que essas pessoas vão chegando ao país e se estabelecendo, passam também a se organizar para lutar pelos seus próprios direitos. Exemplo disso é a criação, em novembro de 2014, da Associação dos Haitianos no Rio Grande do Sul (AHRS). Com sede em Porto Alegre, a associação atende imigrantes diariamente e já chegou a mobilizar mil pessoas em eventos culturais.

A AHRS tem como missão valorizar a educação e mostrar que as pessoas imigrantes também fazem parte da sociedade, podendo colaborar com o desenvolvimento social, econômico e ambiental da mesma. “A associação é um tipo de entidade que representa a comunidade. Ali conseguimos fazer reuniões, conversas e eventos. São atividades boas para a gente aprender e para a comunidade brasileira também aprender conosco”, afirma o presidente da AHRS, James Derson Sene Charles.

A ideia de formalizar a associação surgiu, de acordo com James, para mostrar que o grupo de imigrantes do Haiti existe. “Vários haitianos sofrem preconceito e xenofobia e, além de acontecer muitos problemas, a sociedade civil não conseguia entender nossa cultura. No Brasil não existe um espaço para falar dos imigrantes, mostrar nossos talentos e capacidades, então, criamos a associação para mostrar que não viemos só para buscar trabalho, mas também organizar coisas boas”, disse. Por isso, segundo ele, a associação não serve apenas para ajudar as pessoas haitianas, mas todas as imigrantes e todos imigrantes que vivem no estado.

As atividades promovidas pela AHRS estão relacionadas à assistência social, educacional, linguística e jurídica, além de atividades culturais. “Convidamos palestrantes para falar sobre temas como o direito do imigrante e direito trabalhista e ajudamos os imigrantes desde processos jurídicos até funerais. Temos muitas demandas de documentação e de pessoas que precisam de casa para morar ou têm dificuldade para pagar aluguel. Também já traduzimos alguns materiais para os imigrantes e organizamos eventos para mostrar nossa cultura, comermos juntos e tocarmos nossa música”, explicou James. As atividades geralmente acontecem em Porto Alegre, mas também envolvem pessoas de outros municípios.

Em 2017, a associação promoveu o Dia da Integração Haitiana. Além de ser uma iniciativa de conscientização, o evento foi uma oportunidade para aproximar a comunidade haitiana da população gaúcha. O grupo que participou saiu em caminhada por 3,5 quilômetros, do Mercado Público de Porto Alegre até o Estádio Beira-Rio, e, ao final do trajeto, no Gigantinho, houve apresentações artísticas e um torneio de futebol de salão.

A associação também ajudou o grupo de imigrantes da ocupação Progresso na luta e acompanhamento após a reintegração de posse sofrida no dia 4 de setembro de 2018. A ocupação, iniciada em 2014 e localizada no bairro Sarandi, abrigava mais de cem famílias, quase 70% delas compostas por pessoas do Haiti e, após a reintegração, pouco foi feito pelo poder público para apoiar ou acompanhar as famílias que ficaram desabrigadas.

Para 2020, além das atividades diárias já promovidas, a associação quer proporcionar cursos de língua inglesa, francesa, espanhola e crioula. A dificuldade encontrada, aponta James, é conseguir pessoas voluntárias para darem as aulas. Outro projeto é a implementação de cursos profissionalizantes de português, logística e informática. “É o nosso objetivo, mas para fazer isso precisamos ter um projeto mais amplo, pois não conseguimos fazer só com nosso esforço. Precisamos ter verba, porque nenhuma entidade agora está querendo fazer as coisas de forma gratuita”, disse. Segundo ele, tratativas com o governo são impossíveis. “Desde o momento que a associação foi criada, não recebemos nenhum centavo do poder público. Nesse mês, eles doaram roupas de inverno para nós, sendo que é verão. Uma total falta de respeito”, lamentou.

Na parte ambiental e cultural, a associação está em tratativas para a adoção de uma praça no bairro Rubem Berta, zona norte de Porto Alegre. “Vai ser a Praça dos Imigrantes, nós mesmos estamos fazendo o projeto”, afirma James. O haitiano explica que a demanda já foi aprovada pela prefeitura e agora é preciso que seja feito o corte da grama e realizado algum tipo de comemoração para a inauguração. “Ainda não temos data prevista, porque estamos coletando os materiais e não temos quem invista nisso, mas queremos fazer eventos depois de dezembro”, ressaltou. Além de ser um espaço de lazer para as famílias, a praça servirá para treinamentos e campeonatos do time de futebol haitiano. Além disso, James aponta que a ideia da praça é também ajudar a cidade e mostrar às pessoas que as imigrantes e os imigrantes podem contribuir de diferentes formas.

Imigração haitiana

O Rio Grande do Sul, junto de Santa Catarina, é o destino escolhido pela maioria de haitianas e haitianos que vêm ao Brasil. James afirma que mais de 20 mil pessoas haitianas vivem no estado, sendo que as duas cidades que mais concentram imigrantes são Porto Alegre e Caxias do Sul, seguidas por outras como Lajeado e Bento Gonçalves, municípios com maiores ofertas de trabalho disponíveis e melhores condições de habitação. Na capital gaúcha, estima-se que more cerca de sete mil pessoas haitianas, parte delas vivendo na zona norte da cidade.

Morando há seis anos no Brasil, James entende que a imigração possui dois lados: um está relacionado a ter que sair do seu país de origem e de uma condição de vulnerabilidade e insegurança social para ir viver em outro local com a esperança de acolhimento e melhores condições de vida; enquanto que, por outro lado, sair não apenas significa deixar o país, mas também a família e todas as pessoas que se conhece e se convive para se adaptar em outro lugar e outro sistema. “A recepção que tive não foi tão boa, mas a experiência é boa. Eu gosto da cultura brasileira, estou casando com uma brasileira e a gente aprende bastante. Mesmo não ganhando muito, a gente consegue viver aqui e cuidamos dos familiares de lá”, afirmou.

*A Associação dos Haitianos no Rio Grande do Sul recebeu apoio da Fundação Luterana de Diaconia (FLD), instituição associada da Abong, por meio do projeto Imigrantes Haitianos e Haitianas com Direitos Humanos

(Foto: Samuel Maciel)

(*)CARDUME – Comunicação em Defesa de Direitos é uma rede que reúne organizações e movimentos da sociedade civil para ações articuladas de comunicação que potencializem a promoção e defesa de direitos e bens comuns.