Publicado em: 31 de agosto de 2017

O mês da visibilidade lésbica traz à tona as violências e o descaso com os direitos destas mulheres

Por Felipe Sakamoto, do Observatório

Agosto é considerado o Mês Nacional da Visibilidade Lésbica. No dia 29 de agosto de 1996 aconteceu o 1º Seminário Nacional de Lésbicas e Bissexuais no Rio de Janeiro. Este dia é significativo para comunidade lésbica, pois recorda os momentos de luta e reivindicação por direitos.

De acordo com dados do Governo Federal, em 2012, das 4.851 pessoas vítimas de violências de caráter homofóbico, 37,6% eram lésbicas. Além da sexualidade, elas também sofrem pelo gênero. Foram 179 relatos de agressão por dia de janeiro a junho de 2015 registrados pelo balanço Ligue 180 – Central de Atendimento à Mulher.

Entre janeiro de 2013 a março de 2014, a Comissão Interamericana de Direitos Humanos monitorou as violências contra as pessoas lésbicas, gays, bissexuais, transgêneros e interssexual (LGBTI) na América, constatando que dos 770 atos de agressões físicas ou psicológicas, 55 foram contra mulheres lésbicas ou percebidas como tais. O grupo foi vítima de estupros corretivos, quando a intenção é violentar para corrigir a orientação sexual, espancamentos coletivos por causa de manifestação pública de afeto ou violência no ambiente familiar.

Quanto ao tratamento da mídia sobre os casos de violência, a professora e integrante da Coletiva Luana Barbosa – que surgiu do Grupo de Trabalho de mulheres negras da Caminhada de mulheres Lésbicas e Bissexuais de São Paulo em 2016 –, Ane Sarinara, afirma que há apagamento da palavra lésbica nos noticiários. “A mídia não coloca que mulheres lésbicas foram assassinadas, geralmente, coloca que uma “pessoa homossexual” ou uma “pessoa sofreu alguma agressão”, parece que a palavra lésbica é proibida”.

E quando são retratadas pelo campo audiovisual, na visão de Sarinara, mulher negra e lésbica, não são contempladas. “O filme de lésbica para ser aceito, não precisa ter um enredo. É preciso ter sexo. E quem faz [os filmes] quando você vai ver os nomes de produtores, roteiristas, diretores são todos homens”, pontua. Para ela, nestas cenas existe um “resquício da pornografia”, pois os homens são os que mais consomem pornografia, assim, para eles, a ideia de lésbica, no imaginário deles, são duas mulheres que perfomam feminilidade e que estão ali para agradá-lo.

A advogada e cofundadora da Rede Feminista de Juristas, Marina Ganzarolli, diz que a sexualidade do homem é vista como sendo o único veículo de prazer possível, ignorando o que sentem as mulheres: “Tanto a pornografia quanto a mídia reforçam estereótipos de gênero, objetificam o corpo da mulher, nunca são colocados a partir da perspectiva da sexualidade feminina e do prazer feminino, seja em um relacionamento hétero ou homossexual”.

Essa representação pornográfica unilateral acarreta violência para as mulheres lésbicas que estão em situação de vulnerabilidade. “Muitas vezes quando estamos com as nossas companheiras de mãos dadas, fazendo algum carinho, a gente se depara com olhares, falas e ações de assédio. E se não aceitamos esse abuso, muitas vezes, eles acabam agredindo, matando, estuprando”.

Ambas percebem que atualmente mais lésbicas falam abertamente sobre a orientação sexual em espaços públicos e estão se auto-organizando e criando coletivos. Contudo, ainda pontuam a lesbofobia e a misoginia, até dentro do meio LGBT, como um obstáculo. “Nessa sociedade patriarcal, machista, elitista, racista e capitalista, amar outra mulher significa resistência”, afirma Ganzarolli.

O tabu da saúde sexual

A discriminação contra mulheres lésbicas está presente em diversos campos, mas de forma velada, como no acesso à saúde. Pesquisa nacional realizada pelo Ministério da Saúde, em 2012, com 207 professores de 144 escolas médicas revelou que as questões de sexualidade não costumam ser pautadas durante a formação em saúde. Há uma crença que lésbicas não correm risco de contraírem doenças sexualmente transmissíveis durante o sexo. A médica familiar formada pela Unicamp e membro do Coletivo Feminista Sexualidade e Saúde, Thais Machado Dias, diz que existe o risco da transmissão de DSTs entre lésbicas, mas é comprovado pela medicina que há menos chance de transmissão de HIV no sexo entre mulheres do que no sexo heterossexual ou no homoafetivo masculino.

De acordo com Thaís Machado, o grande problema em relação aos modos de prevenção é que todos são alternativas adaptadas de outros objetos, como o dental dam, produto odontológico e o plástico filme, que podem ser usados como barreira para que não ocorra a exposição. A médica aconselha o uso do preservativo masculino, mas é necessário fazer dois cortes na camisinha: na ponta e no meio da argola. Outro método é o uso de luvas ou dedeiras de látex para penetração. “Nenhuma dessas opções são próprias de um sexo entre duas vaginas. São adaptações de outras funções. A indústria faz a proteção do sexo para o pênis”, afirma.

Higiene é essencial. Machado recomenda cuidar da higiene íntima e da mão, não deixar as unhas longas para evitar bactérias e cortes na vagina; evitar contato com sangue. E anualmente realizar os testes de sorologias.

A cada seis meses, Daniela Almeida* marca uma consulta com a ginecologista que frequenta há mais de dois anos. No último atendimento, falou para médica que se relacionava com mulheres. “No primeiro momento, ela questionou se foi só uma vez, apenas uma curiosidade. No segundo momento, ela perguntou como eu me protegia em relações com homens. Aí, eu retifiquei que era lésbica. Na terceira vez que questionei, ela gaguejou e disse ‘É, eu não sei, eles falam do papel filme ou simplesmente não entrar em contato’”, relata a estudante.  “O sexo lésbico é sempre uma brincadeira, nunca é levado a sério”. “Na escola, não temos nenhum tipo de orientação, somente sobre o sexo heterossexual. E é uma questão de saúde pública, mas simplesmente ninguém investe”, comenta Daniela.

De acordo com levantamento do Ministério da Saúde realizado em 2012, a maioria dos profissionais oferece anticoncepcionais e preservativos masculinos antes de perguntar sobre as práticas sexuais destas mulheres, partindo do pressuposto de que a vida sexual das mulheres é heterossexual ou ligada à reprodução.

O coletivo oferece um tratamento diferente da medicina tradicional. A consulta dura uma hora e promove a autonomia da paciente sobre seu próprio corpo. Primeiro, é discutido dúvidas e condutas com a mulher. O exame, como o papanicolau, é realizado pela própria paciente, ou acompanhado por meio de um espelho no teto e outro dado na mão da mulher. A prescrição é discutida em conjunto com as preferências da paciente. “Essa mulher escolhe, uma coisa que a medicina tradicional dá pouco”. Por meio do diálogo que as mulheres conhecem seu próprio corpo. “A questão do coletivo é que acolhemos todos os tipos e jeitos de exercer o seu feminino”, finaliza Thaís.

*o nome foi alterado para preservar a identidade da fonte

Foto: Mídia Ninja