Publicado em: 13 de novembro de 2018

Coordenadora da Marcha Mundial de Mulheres (MMM) participou da última edição do programa ‘No Jardim da Política’

Nos momentos políticos mais importantes da história recente do Brasil, as mulheres estavam na linha de frente da resistência popular, segundo Nalu Faria, coordenadora da Marcha Mundial de Mulheres (MMM). Crítica à Bolsonaro, ela acredita que a perspectiva é que o gênero feminino continue sendo protagonista na oposição contra o projeto de país do presidente eleito e de sua equipe, que unem pautas conservadoras e reacionárias a políticas neoliberais.

A psicóloga, que também coordena a Sempreviva Organização Feminista (SOF) foi a entrevistada da última edição do programa No Jardim da Política, da Rádio Brasil de Fato.  “O que está acontecendo agora é que como o neoliberalismo não tem legitimidade para se impor, eles estão buscando pautas chamadas comportamentais ou conservadoras e o ataque à democracia, para conseguir implantar sua agenda econômica”, ressaltou Nalu, que defende um feminismo anti-sistêmico.

Referência feminista, Nalu também comentou que a campanha e os grandes atos “Ele não”, contra Jair Bolsonaro, assim como a militância corpo a corpo para impedir sua eleição, foi articulada pelas mulheres, principalmente.

“Ficou uma marca da resistência das mulheres. Não só uma resistência por questões imediatas. A pauta política das mulheres é extremamente radical e ampla, é de denunciar a violência como estruturante do modelo de sociedade que nós temos, de denunciar essa desigualdade das mulheres em todos os âmbitos, de olhar para as dimensões do privado, ampliar o conceito de trabalho e de economia, então, é de questionar as formas de exercício de poder”, disse a representante da Marcha.

Confira a entrevista na íntegra.

Brasil de Fato – O que é a Marcha Mundial das Mulheres? Quem a compõe?

Nalu Faria – A Marcha Mundial das Mulheres se iniciou em 2000 como uma campanha contra a pobreza e a violência sexista. Naquele momento, com uma decisão política muito bem definida contra o capitalismo, lutando pela erradicação da pobreza e não uma discussão de minimização. Ela conseguiu uma mobilização tão grande que muitos países quiseram continuar como um movimento permanente. A partir daí nos construímos de forma permanente. Estamos organizadas em 70 países e aqui no Brasil temos uma das marchas mais fortes, organizada em 19 estados.

Temos atuado esses anos todos com uma agenda que chamamos de feminista anti-sistêmica. O que queremos dizer com isso? Não estamos lutando só para direitos da Legislação ou das políticas públicas. Queremos mudar as relações, acabar com o capitalismo, com o racismo, com o patriarcado. Com a opressão da sexualidade. Por isso falamos anti-sistêmica. Ou seja, com a ideia de construção de um outro modelo. Por isso também nossa agenda é muito ampla. Embora tenhamos essa centralidade na agenda econômica, como um movimento que ficou conhecido por trazer pautas econômicas para as mulheres, passamos por todos os temas; da violência, da saúde, da moradia, da soberania alimentar, dos bens comuns e a assim por diante. Sempre buscando ter uma perspectiva feminista para esses temas.

Nesse último período, a partir daquele momento que o Eduardo Cunha, como presidente da Câmara, começou a levar pra frente uma série de propostas regressivas de direitos, as mulheres tomaram uma dimensão no protagonismo da política muito importante. Desse período pra cá, como foi essa organização? Desde a “primavera das mulheres”, passando pelo golpe?

Uma primeira coisa que temos que falar sempre em relação a isso é que não foi algo espontâneo. Temos um processo de construção do movimento de mulheres há muitos anos. Nos final dos anos 90 e no início dos anos 2000, na dimensão da luta contra o neoliberalismo, o movimento de mulheres se fortaleceu muito e mesmo nesses anos que chamamos de governos progressistas, do Lula e da Dilma, mantivemos uma organização em diálogo crítico com o governo e muito atentas para os sinais de como a direita tentava minar os avanços que estávamos tendo no país.

O tempo todo estávamos mostrando como essa bancada conservadora atuava e assim por diante. Esse momento que colocamos como primavera feminista é precedido de muitas mobilizações. Para citar um exemplo, nós tivemos a Marcha das Margaridas em agosto de 2015. Foi a primeira vez em que pedimos o “Fora, Cunha!”. Logo em seguida, estávamos tão acertadas na nossa proposta que o Cunha teve aquela reação de fazer um projeto extremamente conservador. Isso detonou uma mobilização do movimento de mulheres que foi muito mais ampla. Não foi só a Marcha Mundial de Mulheres, foram vários movimentos, inclusive grupos de jovens, coletivos, mas também outras organizações, também de mulheres que estão organizadas nos movimentos sociais mistos, como os movimentos sindical, camponês e de moradia.

Sempre que existe políticas públicas de apoio a infra-estrutura social, de melhoria de questões como salário mínimo, tem um impacto muito forte na vida das mulheres. Um impacto positivo. Então, qualquer coisa que ameace essas conquistas, as mulheres têm, portanto, uma tendência a resistir e a se mobilizar para manter as conquistas.

Sabemos que é muito novo o que estamos vivendo: a junção de uma pauta econômica neoliberal, com uma narrativa de comportamento, com traços de fascismo. Isso vai exigir dos movimentos um reordenamento. Sabemos que as mulheres e outras populações vulneráveis sofrem mais impactos com esse tipo de retrocesso. Como a Marcha tem avaliado todo esse panorama?

Nós, da Marcha Mundial de Mulheres, sempre tentamos fazer a seguinte reflexão: a desigualdade que atinge as mulheres, o patriarcado, o racismo, não tem apenas uma dimensão cultural. Há uma dimensão econômica, estruturante no modelo. Como o neoliberalismo não tem legitimidade para se impor, ele estão buscando pautas chamadas comportamentais ou conservadoras, além do ataque à democracia, para conseguir implantar sua agenda econômica.

Um primeiro desafio é olharmos bem essa conexão entre o conservadorismo e o sentido dele na implantação da agenda econômica. Um desafio para nós é não deixar nossos movimentos e setores progressistas continuar reforçando uma ideia de que o movimento de mulheres, o movimento negro e o LGBT são identitários. Não significa que esses movimentos não trabalhem a dimensão do reconhecimento e da identidade, costumo dizer que a classe trabalhadora, quando se organiza, também tem uma dimensão identitária, de construção de sujeito político.

Mas é justamente olharmos e não fazermos essa oposição entre identitário e luta de classes, ou identitário e econômico, mas justamente perceber como essas questões estão embricadas e são estruturantes. Isso vai nos ajudar a olhar de forma mais aguçada o que é o momento atual e como estão operando as estratégias do sistema capitalista, neoliberal, hétero, patriarcal, racista e colonialista.

A mobilização mais próxima que tivemos foram as movimentações do “Ele não”, contra Jair Bolsonaro. Como avalia esse processo? Não tivemos o resultado que aquelas pessoas que estavam na rua esperavam, mas qual foi o saldo político?

Pensando no período do primeiro turno, a grande mobilização de rua foi essa mobilização das mulheres com o “Ele não”. Precisamos ressaltar como as mulheres se colocaram como sujeitos políticos ativos, inclusive, uma mobilização articulada em nível nacional, não só nas capitais, também nas cidades do interior.

Temos que analisar como a direita estava forte. Não foi uma disputa em condições de igualdade. Estávamos vivendo um processo eleitoral e político problemático. Desde o fato do Lula estar preso, ser preso político para não ser candidato, mas também todas as questões que vieram à tona nesse processo. Nesse sentido, não podemos cair no discurso do fato das mulheres terem resistido, que implicou em piorar ou aumentar os índices do Bolsonaro.

No segundo turno, houve uma grande mobilização na qual, de novo, as mulheres tiveram forte protagonismo. Nós, da Marcha, não só em São Paulo, mas no país todo, nos organizamos muito para panfletarmos, para irmos conversar com as pessoas. Podemos ver que as mulheres eram a maioria que estavam nesse corpo a corpo nas ruas. Essa dimensão das mulheres se colocarem como sujeitos e protagonistas não é só aqui no Brasil.

Essa experiência política, e até por isso é porque tem sido tão atacada, tanta reação conservadora, e claro, a direita e o candidato Bolsonaro atuou contra isso, inclusive trazendo uma questão que já não existia no Brasil. Uma forma de intervenção para dividir as mulheres entre limpas e sujas, boas e vadias. Vimos a declaração do filho dele falando que as mulheres da direita eram melhores do que as mulheres de esquerda porque eram “mais limpinhas”. Colocaram uma disputa entre as mulheres, utilizando de alimentos muito arraigados da nossa cultura, da imposição do que é ser mulher na sociedade. Como nós mulheres temos uma memória histórica do que é o castigo sobre nós, estamos mais vulneráveis à essa pressão social e essa dimensão da exigência que estejamos bem comportadas. A história de castigo e de marginalização das mulheres é muito grande. Os estigmas são grandes e isso é uma arma poderosa para minar a força das mulheres.

Mas, o que temos pra ressaltar de positivo é que ficou uma marca da resistência das mulheres. Não só uma resistência por questões imediatas. A pauta política das mulheres é extremamente radical e ampla, é de denunciar a violência como estruturante do modelo de sociedade que nós temos, de denunciar essa desigualdade das mulheres em todos os âmbitos, de olhar para as dimensões do privado, ampliar o conceito de trabalho e de economia, então, é de questionar as formas de exercício de poder. Uma pauta muito ampla e que nos ajuda a pensar as alternativas.

Sabemos que esse movimento neofascista, neoliberal e neopunitivista, são conceitos novos e globais. Temos experiências de governos eleitos que seguem uma linha de extrema direita, outros mais intermediários mas que convergem em muitas questões, como o Donald Trump. Como você, integrante do comitê internacional da Marcha, enxerga esses desafios colocados na América Latina e também no mundo?

No final de outubro, tivemos o 11° encontro internacional da Marcha. Já no processo preparatório, quando discutimos os contextos, a primeira coisa que percebemos é como nossas realidade são comuns. A dimensão do conservadorismo, da extrema direita, da criminalização dos movimentos e das lideranças é extremamente ampla. Temos países muito emblemáticos, como por exemplo, a Filipinas. Ou, só ver o que aconteceu na Espanha ano passado. São várias questões que nos colocam em uma dimensão global e é por isso que tem a ver com como o sistema capitalista está precisando dessa faceta neofascista, conservadora, para impor sua agenda econômica, com a desculpa de “resolver crises”. A crise, na verdade, é uma desculpa para sua reorganização como sistema, no caso do capitalismo. Essa é uma dimensão forte, que reforça para nós como é importante que as estratégias que pensamos, que a mobilização, que a nossa luta, continue tendo esse caráter internacional, que pensemos em caráter global o que tem que ser essa reação e nossa mobilização.

Nas últimas eleições, passamos de mais de 10% de representação feminina no Congresso, para cerca de 15%. Passou de 51 para 77 deputadas federais. Como você avalia a representação feminina?

Quando começamos a fazer esse debate da representação, entramos em dimensões muito complexas, inclusive sobre o que é o feminismo hoje. Porque? Como esse sistema político que temos é extremamente pouco democrático, ele, na verdade, limita os avanços. Os avanços sempre são limitados por essas estruturas de poder que temos. Se olharmos, cresceram as mulheres de esquerda, mas cresceram mais as mulheres dos setores conservadores. Para nós, é muito importante que não caiamos na ideia de que é só ir avançando no número de mulheres nesses espaços, porque estar em espaços de poder é uma aspiração não só das mulheres da classe trabalhadora, até mais das mulheres da classe dominante, das elites, porque se percebem como pessoas que podem ocupar esses espaços.

Por isso que achamos que temos que vincular a luta da representação com a reforma política, com a reforma do Estado. Pensar processos realmente democráticos, como por exemplo, a lista partidária. A questão de se ter números limitados de mandatos. A questão do financiamento de campanha. Do contrário, acabamos no engôdo de pensar uma dimensão de poder individual. Claro que é bom que tenhamos mais mulheres de esquerda eleitas, mas isso é apenas um elemento, não é o determinante nas mudanças que a gente quer e precisa construir.

Queremos um sistema de poder que seja realmente popular. Portanto, precisamos olhar quem são essas e esses representantes que estão chegando lá. Se é a negritude, se é do campo, da cidade. Vamos ver também que o Congresso é composta, em sua maioria, por empresários e aí por diante.

O crescimento dos evangélicos e dos militares também. Apesar de algumas bancadas terem perdido força, outras aumentaram muitíssimo, como foi o caso dos militares. O PSL, por exemplo, saiu de um para 52 deputados.

Claro que temos que pensar, enquanto movimento social, como construímos uma relação com os movimentos democráticos da Câmara, também para quem está lá e no Senado pela esquerda hoje, olhar esses espaço como lugar de fortalecimento da luta e não só da articulação de políticas institucionais. Eles têm que nos ajudar a construir força popular, porque se não caímos em armadilhas e questões intermináveis, que vão ficando com uma ação muito limitada.

Entre 2002 e 2016 as políticas públicas foram pensadas na mulher como gestora, a exemplo do Bolsa Família e do Minha casa, minha vida. Qual a importância dessas políticas públicas para o empoderamento feminino?

Sempre olhamos essas políticas com um significado maior pelo fato de estarem articuladas a outras políticas. No período anterior, do Fernando Henrique Cardoso, muitas vezes já tinham o discurso das mulheres serem as receptoras dessas políticas, seja de transferência de renda. Agora, como eram políticas focadas em uma população pequena, elas tinham um impacto muito menor.

Qual foi a diferença no governo Lula e Dilma? Primeiro que essas políticas, no caso do Bolsa Família, objetivaram atender o conjunto de pessoas da população que precisavam dessa política. Segundo, ela não foi uma política isolada. Estava vinculada à valorização do salário mínimo, ao Minha casa, minha vida, e melhorias de infraestrutura nos serviços de educação, saúde, saneamento básico, energia elétrica e assim por diante. Ao ter esse conjunto de políticas, o papel do Bolsa Família foi muito mais importante. Ele não estava isolado, era um conjunto que também contribuiu para esse empoderamento, para essa ideia de construção de autonomia.

Só para dar um exemplo, na área do campo, que nós acompanhamos bastante, a existência de algumas políticas para as mulheres rurais tiveram um impacto extremamente importante sobre elas. Seja política de crédito, comercialização das compras governamentais ou a exigência da titulação conjunta, mesmo sabendo que essas políticas agrárias eram muito limitadas em relação ao que nós queríamos, da verdadeira reforma agrária. Mas mesmo dentro desses limites, elas tiveram um impacto muito grande.

Para a previdência, o projeto de Bolsonaro parece ser o projeto do Temer piorado. De que maneira isso impacta a vida das mulheres trabalhadoras?

Esse é um dos impactos mais temidos por nós nesse momento. Exigirá de nós muita resistência. Não é por acaso que as mulheres estiveram na frente de resistência à proposta do Temer. Todas as propostas de reforma tendem a ter um impacto maior sobre as mulheres. O primeiro elemento é esse de querer igualar a idade da contribuição, como se as mulheres e os homens estivessem inseridos no mundo do trabalho da mesma forma.

Quando as mulheres ficam desempregadas, ficam muito mais tempo. Na relação com a maternidade, muitas mulheres tem que sair do trabalho assalariado porque não tem creche, porque não tem condições de cuidar das crianças. A vida de contribuição das mulheres é mais intermitente, então, elas sempre terão mais dificuldades. O outro elemento é que essa discussão da reforma da Previdência, embora estar sendo trabalhada de forma fatiada, tem um impacto grande porque a Previdência está vinculada à seguridade social. E essas contra-reformas estão impactando muitos elementos, como por exemplo, o benefício da prestação continuada, as pessoas com problemas de saúde e deficientes. É um impacto bem mais forte sobre as mulheres. Porque se você tem uma pessoa que na sua família é deficiente, que tem o benefício e deixa de ter, significa que as mulheres terão mais dificuldade de cuidar e de como lidar. Então, de fato, é um ataque frontal.

Temos na nossa memória como uma das melhores política de distribuição de renda nos últimos anos no Brasil, ainda foi a conquista das mulheres camponesas na constituição da previdência rural. Se olharmos vemos a mudança dessa ampliação, que antes era meio salário mínimo e agora é de um salário mínimo, podendo ser para os dois de uma família, quando casados. Uma política de seguridade social que busca realmente ser solidária, tem um impacto muito grande na vida das mulheres. Como esse modelo quer o contrário, realmente é uma ataque frontal aos mais vulneráveis, e nesse caso, às mulheres.

O assassinato da vereadora Marielle Franco (Psol – RJ)  marcou muito o Brasil mas ultrapassou as fronteiras, não só por ela ser uma militante dos direitos humanos, mas feminista, lésbica. Tudo isso a tornou símbolo dessa luta de agora. E recentemente, houve a aprovação da federalização, no Congresso, para que esse o crime seja levado adiante de forma séria. Uma federalização pode ajudar?

No caso da Marielle, como em vários outros de assassinatos de liderança, é muito importante essa dimensão dessa articulação, de ter uma luta permanente. Se ela é nacional, é melhor, pode ser mais potente. E que nós não deixamos essa dimensão de manter a memória, inclusive acho que é uma dimensão que temos que trabalhar mais no Brasil. Tava vendo agora no 20 de novembro que um dos elementos que o movimento vai trabalhar é a denúncia e a reflexão sobre os mortos desse último período, das lideranças negras assassinadas pelo golpe. A Marielle, o Anderson, o mestre Môa e o jovem do Ceará.

É também muito importante que esse processo que está se dando pela via jurídica, seja acompanhado da nossa mobilização. Isso pode ser um elemento decisivo para se conseguir que haja punição, que haja Justiça. E, mais do que isso, além da Justiça e da punição, que é importante diante da perda que representa essas lideranças para nós, em particular da Marielle, mas é importante, inclusive, para construirmos uma consciência social para que lutemos e que isso não exista nunca mais.

(Foto: José Eduardo Bernardes)