Publicado em: 5 de dezembro de 2016

Casa de mais de 6 mil índios, terra indígena enfrenta o desafio que é o do Brasil: investir em energia limpa

Painéis solares (Foto: GreenMe)
Painéis solares (Foto: GreenMe)

Primeiramente, já não é mais “parque”. O nome Parque Indígena do Xingu (PIX), no Mato Grosso, que remonta à saga dos irmãos Villas-Bôas na primeira metade do século XX, já é passado. As 16 etnias xinguanas decidiram, recentemente, que vivem no Território Indígena do Xingu (TIX). Atendendo às recomendações dos xinguanos, chamaremos o PIX de TIX de agora em diante.

O TIX tem muitas novidades sobre seu passado recente, mas os mitos ainda orientam a vida presente de seus moradores.

Na mitologia xinguana, Taũgi (Sol) e Aulukumã (Lua) são os gêmeos criadores da humanidade. Eles fizeram os primeiros chefes do Alto Xingu a partir de arcos de madeira, enquanto as pessoas comuns teriam sido feitas de bambu de flecha. “O sol criou tudo”, resume o cacique Awaulukumá Waujá, da aldeia Piyulaga, onde vivem 411 Waujá, ou Waurá. A comunidade é a maior do TIX.

Os povos descendentes do sol escolheram os sistemas fotovoltaicos para reduzir a dependência do óleo diesel — caro e poluente— e construir um futuro diferente para as próximas gerações. Para o resto do Brasil, a solução xinguana pode apontar um caminho para a promoção de fontes energéticas realmente limpas.“É um sonho gerar energia em silêncio. O gerador dá muito trabalho, gasta muito diesel. A placa fica em silêncio e não dá trabalho”, disse o cacique Awaulukumá Waujá.

Até 2019, o ISA e a Associação Terra Indígena Xingu — Atix, em parceria com o Instituto de Energia e Ambiente da USP (IEE-USP) vão levar a várias aldeias do Xingu, sistemas de geração de energia solar para 55 escolas, 22 postos de saúde e mais uma dezena de pontos comunitários de apoio às atividades produtivas no TIX. O projeto Energia Limpa no Xingu pretende se tornar uma referência em soluções de energia renovável, descentralizada e fácil de operar em comunidades isoladas, em especial na Amazônia.

Os profissionais do sonho

A aldeia Piyulaga foi escolhida para ser a sede da formação de 32 novos profissionais, que farão a instalação e manutenção das placas solares. Durante cinco dias, em outubro, os alunos de 10 etnias receberam aulas dos engenheiros do IEE. Essa foi a segunda turma. Mais de 100 xinguanos vão receber o treinamento até o primeiro semestre de 2017.

“Quando você traz energia solar, você traz uma soberania energética”, diz André Mocelin, do IEE-USP. Em sala de aula, ele usa material didático simples com os indígenas: caderno e canetas coloridas. Cada aluno desenha o conteúdo da apostila que servirá como guia na hora de montar e cuidar da manutenção dos sistemas fotovoltaicos nas aldeias em que vivem.

O IEE tem experiência no assunto: já implantou esses sistemas em comunidades indígenas do Médio e Alto Solimões (AM) e quilombolas do Vale do Ribeira (SP). Também inventou uma máquina de “gelo solar” que conserva alimentos para comunidades extrativistas no Amazonas.

Revolução energética

A formação dos eletricistas e a instalação das placas solares são parte de uma meta ambiciosa, verdadeira revolução energética: reduzir o consumo do diesel em 75% nos quatro “pólos” do TIX, centros comunitários com instalações de saúde, educação e comunicação. Mais de 80 aldeias com escolas e postos de saúde também serão beneficiadas.

O diesel é necessário para fazer funcionar todas essas instalações, além de uma série de atividades produtivas e de lazer cotidianas. O tamanho da conta depende da população de cada aldeia. Os recursos do governo para compra do combustível, porém, são insuficientes.

“A gente recebe aqui uma cota de 200 litros [de diesel] por mês, mas gasta 20 litros por dia. A conta não fecha. Todo mês acaba”, explica Apayupi Waujá, presidente da associação do povo Waujá.

O combustível viaja por até 24 horas para chegar à aldeia Piyulaga. Em geral, sai da cidade de Canarana (MT) e segue por uma estrada de 120 km até a beira do Rio Culuene, já na fronteira do TIX. A partir dali, os tambores são colocados em “voadeiras” (barcos rápidos) até chegar ao porto da comunidade. Uma caminhonete leva a carga por mais 40 km de estrada de terra. — Já as placas solares, uma vez transportadas e instaladas, podem durar até 25 anos.

Quando acaba o diesel, acaba a água limpa. A bomba d’água que abastece as 33 casas também precisa do combustível. Precisava. Após o curso, a instalação foi revitalizada e um sistema com placas solares agora puxa a água do poço artesiano e leva-a ao reservatório. A bomba pode ser ligada tanto ao sistema fotovoltaico como ao sistema a diesel, essencial ainda em dias chuvosos ou nublados.

Assim, 2016 entra na história da aldeia Piyulaga como o ano em que os índios deram um passo essencial para terem acesso a água limpa de forma autônoma. É um avanço importante já que o desmatamento, a erosão do solo e o uso intensivo de agrotóxicos nas fazendas que cercam o TIX têm comprometido o uso dos rios como fontes de água potável.

Sociedades em movimento

As sociedades xinguanas mudaram muito nas últimas décadas. E vão continuar mudando. A população cresceu e é majoritariamente jovem. Segundo a Secretaria de Saúde Indígena (Sesai), 6.307 índios vivem no TIX hoje e 60% dessa população tem menos de 15 anos. A última década também marcou o crescimento das cidades no entorno, a consolidação do agronegócio na região e a melhoria das estradas.

Novas formas de renda e trabalho surgiram. Os jovens querem estudar. Muitos estão nas universidades. São 210 professores indígenas contratados pela Secretaria de Educação do Mato Grosso e dos 10 municípios que abrigam a TI.


Tudo isso deixou os índios num contato ainda mais intenso, muito diferente da situação vivida pelos anciães, como o cacique Awaulukumá. As mudanças trouxeram mais consumo, aumentaram a demanda por comunicação e energia. Os índios do Xingu estão conectados. O futebol na aldeia, ao fim do dia, é povoado por jovens que exibem orgulhosos o cabelo igual ao do ídolo Neymar e de outros jogadores.

“Hoje em dia, a gente usa os equipamentos pra trabalhar. Não é aquele tempo que a gente trabalha só no machado. A evolução tá chegando e nós estamos acompanhando. A rapaziada tem celular, tem suas coisas. Quando alguém fala isso [que índio não precisa de energia], eu respondo que a gente não vai voltar naquele tempo, vamos avançar junto com a tecnologia”, diz Kyua.

Canibalismo tecnológico

Quando o sol começa a nascer na aldeia Piyulaga, é hora de Kuyakuyali e Yakalo Waujá pularem da rede. Desde que se casaram, há 16 anos, eles seguem juntos para a roça todas as manhãs. Vão colher a mandioca que, junto com o peixe, é a base da alimentação dos 20 familiares que moram na casa liderada por Kuya, assim como de toda a população do TIX.

Pontualmente às 8h, Yakalo e outras mulheres da aldeia começam a ralar a mandioca. Muitas usam o ralador tradicional, que lembra um ralador de queijo. A maioria já tem ralador elétrico, movido à gasolina ou ligado no sistema a diesel.

Pela manhã, o gerador é ligado por duas horas para o bombeamento da água do poço artesiano que abastece as casas. É quando as mulheres aproveitam para usar o ralador elétrico. À noite, o gerador é ligado, por mais duas horas, para iluminação nas casas, refrigeração de alimentos e fazer funcionar as televisões, ligadas a antenas parabólicas.

As casas do Alto Xingu — com mais de 7 metros de altura, feitas à mão, com fibra, palha e madeira — não têm janelas. Durante o dia, as mulheres confeccionam a tradicional cerâmica Wauja próximas à porta, onde há mais luz. Na casa de Kuya, uma cena chama atenção: a esposa, Yakalo, trança uma rede, às 15h, com uma lâmpada ao fundo. A energia vem de uma placa solar.

Há três anos, numa passagem por Canarana, Kuya ficou impressionado ao notar que a geladeira, ar condicionado e chuveiro da casa de um amigo funcionavam com a energia gerada por placas solares. A família mobilizou esforços e, com as economias do salário de diretor da escola, ele encomendou a placa pela internet. Três meses depois, Kuya montou o sistema na sua casa.

Foi assim que a esposa ganhou luz para trabalhar e ele para carregar o computador, lanterna e celular, instrumentos essenciais ao trabalho como diretor da escola.

“Já há famílias que têm optado por comprar sistemas fotovoltaicos ao invés de pequenos geradores. Eles têm esta visão do que é mais sustentável. Eles buscam as coisas mais simples e adequadas. Das soluções tecnológicas que aparecem, eles sempre procuram as melhores. De tudo o que eles viram, esta foi a escolha deles”, diz Marcelo Martins, do ISA, um dos idealizadores do projeto.

A placa erguida em 2013 na casa de Kuya foi a segunda a chegar na Piyulaga. Ainda na década de 1990, todas as aldeias receberam uma placa solar implantada pelo projeto Xingu, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), que faz o atendimento de saúde diferenciado para esses povos indígenas desde 1965.A placa instalada nas unidades básicas de saúde, por exemplo, pode alimentar um sistema de refrigeração.

“Não há soro antiofídico na TI porque não há energia constante para mantê-lo conservado”, explica Martins. Inaladores também são frequentemente usados em crianças com insuficiência respiratória, agravada em épocas de queimadas.

O desafio do Xingu é o do Brasil

Experiências como a dos índios do Xingu mostram que é viável mudar o paradigma da matriz elétrica brasileira na direção de alternativas sustentáveis. Historicamente, o planejamento dessa matriz foi pautado por altos investimentos em grandes hidrelétricas, como Belo Monte, que destruiu paisagens, formas de vida e culturas dos parentes xinguanos na região de Altamira (PA).

Hoje, a energia solar corresponde a apenas 0,02% da matriz elétrica nacional. Linhas de crédito e incentivos para as energias sustentáveis alternativas (solar, eólica, biomassa) são recentes. O desenvolvimento tecnológico também vem barateando rapidamente essas fontes.

“O governo deveria aproveitar o sol e não acabar com o rio. O governo fala que energia hidrelétrica é limpa, mas não é. Hidrelétrica acaba com tudo. Energia limpa é solar”, diz Marcelo Kamaiurá. “A gente vai mostrar não só para as comunidades indígenas, mas para os meios urbanos que isso é possível.”

Cerca de 55% do território brasileiro está coberto pelo Sistema Interligado Nacional (SIN). A parte que está de fora, principalmente as áreas mais isoladas da Amazônia, demanda energia.

“Está na hora da sociedade fazer o lobby e isso a gente só faz disseminando o conhecimento. A gente não pode ficar só apontando o problema. É preciso propor soluções e não ficar repetindo problemas. Está na hora de prognóstico, de saber o que fazer, de mudar, de quebrar o paradigma”, destaca André Mocelin.

*O projeto energia limpa na Terra Indígena do Xingu é financiado pela Fundação C.S Mott.

Fonte: Insituto Socioambiental – Medium