Publicado em: 24 de julho de 2020
O estudo do Ibase, a que o G1 teve acesso com exclusividade, entrevistou 2 mil moradores de 13 favelas que formam o Complexo. Para 71% deles, os serviços de saúde, educação, limpeza e abastecimento de água não atendem às necessidades locais.
Por Raoni Alves e Eduardo Pierre
Mais de 63% dos moradores das 13 favelas que formam o Complexo do Alemão, na Zona Norte do Rio, vivem com até R$ 1.238 por mês, ou seja, têm renda menor ou igual a um salário mínimo regional.
Entre essas pessoas, 24% não contam com nenhuma renda mensal. São mais de 8 mil pessoas sem nenhuma fonte de recursos. Apenas 28% do total de trabalhadores do Complexo do Alemão são assalariados com carteira assinada.
É o que apontou uma pesquisa do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase), a que o G1 teve acesso com exclusividade.
Os pesquisadores também traçaram um perfil dos moradores e levantaram dados sobre fome, serviços de saúde, educação, limpeza, abastecimento de água, raça, preconceitos e violência.

Exclusão social

O estudo também aponta para a exclusão social de parte dos moradores do Complexo do Alemão Para 83% dos moradores do Complexo do Alemão, existem pessoas na região que convivem com a fome constantemente.
A diretora do Ibase e coordenadora da pesquisa, Rita Corrêa Brandão, avalia que os dados revelados na pesquisa são a comprovação de que os moradores da região vivem um processo histórico de exclusão.
Dados apontam que a fome está presente nas comunidades — Foto: Divulgação
“Não há a efetividade de direitos básicos. A população percebe criticamente as violações de direitos humanos. A fome, a precariedade dos serviços de saúde, do fornecimento de água, do esgotamento sanitário e das relações precarizadas de trabalho afetam diretamente a população determinando suas condições de vida.”, disse Rita.

Perfil

O grupo de pesquisa do Ibase entrevistou 2 mil moradores das 13 favelas que formam o Complexo do Alemão. Eles criaram o documento ‘Indicadores de Cidadania do Complexo do Alemão’. Os dados revelam o perfil dos moradores.
  • 55 mil e 220 pessoas com mais de 15 anos moram no Complexo
  • 17 mil e 500 são jovens, com idade entre 15 e 29 anos ( eles representam 32% da população)
  • 53% são adultos, com idade entre 30 e 59 anos
  • 15% do total forma a população de idosos, com mais de 60 anos.

Serviços

O trabalho mostrou que para 71% dos moradores, os serviços de saúde, educação, limpeza de ruas e abastecimento de água não atendem às necessidades locais.
Segundo dados do IBGE, ao menos sete favelas do complexo apresentam domicílios que não tem acesso à rede geral de abastecimento de água, esgotamento sanitário e coleta de lixo.
Na visão dos pesquisadores, a baixa qualidade desses serviços faz das 13 favelas estudadas territórios com risco para disseminação da Covid-19.
71% dos moradores considera ruim os serviços de educação, limpeza e abastecimento de água — Foto: Divulgação
“No contexto em que atravessamos, que já vinha de um grave aumento das desigualdades, a pandemia comprova que a falta de condições básicas de vida impacta diretamente nas condições necessárias para a prevenção do contágio e tratamento da doença.”, avaliou Rita.

Violência e discriminação

O levantamento do Ibase revela que 69% dos jovens do Alemão já sofreram ou conhecem alguém quem sofreu com a violência por parte dos agentes do estado.

Além disso, 60% dos entrevistados entre 15 e 29 anos afirmaram que já sofreram ou conhecem quem tenha sofrido discriminação em virtude de sua raça/cor, condição financeira, religião ou por questões de gênero.

Educação e inclusão

Na opinião de 76% dos jovens com idade entre 25 e 29 anos, a educação oferecida nas favelas da região não atende às necessidades dos moradores.
Oferta de educação no Complexo do Alemão — Foto: Divulgação
Dados do Censo Demográfico revelam que 27% dos jovens entre 15 e 17 anos das 13 favelas do Alemão estão fora das escolas. Os que ainda estudam, não conseguem acesso a laboratório de informática ou bibliotecas, por exemplo.

Segundo os pesquisadores, as escolas de ensino fundamental não contam com estrutura e atendimento adequados para a garantia de uma educação inclusiva.

Além disso, dos 648 professores que trabalham nas escolas locais, apenas um deles havia realizado formação continuada nos temas gênero e diversidade sexual. Apenas dois professores tinham conhecimento comprovado em história e cultura afro-brasileira e africana.

Negros

Os pesquisadores indicaram no estudo que o Complexo do Alemão conta com uma população negra 27% maior do que no restante da cidade.

Segundo o Ibase, esse dado revela a concentração da população negra em territórios de favela, “um resultado de um processo de urbanização segregada e racista”.

Nas 13 favelas do Complexo do Alemão, 74% da população se declara negra, enquanto que na cidade do Rio, o percentual cai para 47%.

Trabalho e renda

A pesquisa também mostrou que a vida produtiva dos moradores do Alemão é maior em comparação com os moradores de outras regiões do Rio de Janeiro. No Complexo, o trabalho começa mais cedo e termina mais tarde.

Para a coordenadora do projeto, os números mostram que o peso de garantir a renda das famílias locais recai de forma intensa sobre os mais velhos e os mais jovens. Segundo ela, isso faz com que não se tenha uma velhice mais amena ou uma juventude com mais tempo para os estudos e o lazer.

“Quando examinamos a taxa de trabalhadores ativos por faixa etária observamos que: 39% dos idosos de 60 anos ou mais ainda trabalham e 21% dos jovens entre 15 e 17 anos já trabalham”, disse.

Trabalho no local e empreendedores

A pesquisa revelou ainda que 44% dos trabalhadores da região exercem suas atividades na própria comunidade ou em seu entorno.

Ao todo, 45% dos trabalhadores são autônomos ou empreendedores e 28% do total de trabalhadores são assalariados com carteira assinada.

O estudo contemplou as seguintes favelas:

  • Adeus
  • Alemão
  • Alvorada
  • Baiana
  • Fazendinha
  • Grota
  • Loteamento
  • Matinha
  • Mineiros
  • Nova Brasília
  • Palmeiras
  • Pedra do Sapo (Esperança)
  • Reservatório.

O trabalho foi desenvolvido em parceria com o Instituto Raízes em Movimento, uma organização não-governamental com forte atuação no Complexo do Alemão.

O projeto foi financiado pela organização canadense International Development Research Centre (IDRC), que apoia estudos sobre juventudes em todo o mundo.