Publicado em: 9 de junho de 2014

Um ano depois, protestos que levaram milhares de pessoas ás ruas em todo o país reavivam postura reivindicatória da população e fortalecem mobilizações atuais

Por Nana Medeiros

Em junho de 2013, manifestações contra o aumento da tarifa de ônibus em todo o país demonstraram a capacidade e força da mobilização popular e detonaram um movimento sem precedentes, que levou centenas de milhares de pessoas em protestos gigantescos. Um ano após o ocorrido, a sociedade civil brasileira voltou a ocupar as ruas com novas pautas ou retomando aquelas que, mais intensamente reivindicadas em outras épocas, haviam perdido sua força.

Para Guilherme Boulos, coordenador nacional do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST) as manifestações de junho foram uma demonstração de credibilidade da vontade popular. “O recado que junho deu foi que é possível ter conquistas. Aquelas manifestações acabaram funcionando como um gatilho que disparou inúmeras outras reivindicações que estavam mais adormecidas, como o caso das ocupações de terra, que acabaram se fortalecendo muito”.

No entanto, na opinião de Boulos, os protestos daquele momento se diferenciam dos atuais, pois tiveram suas bandeiras iniciais sustentadas apenas até certo momento. “Depois elas acabaram catalisando o descontentamento de uma classe média conservadora, trazendo reivindicações fora dos reais interesses da classe dos trabalhadores”, afirma. Os protestos atuais, ainda que tenham se fortalecido após aquele período, têm na visão do ativista pautas mais definidas e participação de setores essencialmente engajados no fortalecimento da classe, a exemplo do próprio MTST.

Para Ivo Lesbaupin, diretor executivo da Abong – Organizações em Defesa de Direitos e Bens Comuns, os protestos de junho decorreram de uma insatisfação popular até então inibida, uma vez que pesquisas de opinião pública apresentavam aprovação da população ao governo federal. Para ele, as massas que ocuparam as ruas eram de “marinheiros de primeira viagem”, mas que sentiam a falta da participação da sociedade no que se refere às decisões políticas do país. “Nesse mês foi expressa a vontade de interferir. Primeiro, no preço da passagem de ônibus, aumentada sem justificativa e, depois, em outras pautas”.

Para ele, as manifestações alteraram a conjuntura de diferentes grupos, criando a percepção de que novas e antigas reivindicações poderiam ser conquistadas. Um exemplo seria a greve dos garis no Rio de Janeiro, que teve amplo apoio da população e demonstrou a força da auto-organização dos trabalhadores. “Muitas greves de categorias diferentes dificilmente teriam acontecido sem as manifestações de junho. De lá pra cá grevistas estão se mobilizando contra direções sindicais que não mais mantêm uma postura reivindicatória. Quebrou-se aquela adesão monolítica do movimento sindical às políticas dominantes e acho que isso só vai crescer”.

Exemplo de manifestação que ganhou apoio popular, a greve dos garis no Rio de Janeiro foi auto-organizada pelos trabalhadores e paralisou a cidade por oito dias. O movimento contestou o acordo salarial realizado entre o sindicato e a Prefeitura e contou com apoio da população.
Exemplo de manifestação que ganhou apoio popular, a greve dos garis no Rio de Janeiro foi auto-organizada pelos trabalhadores e paralisou a cidade por oito dias. O movimento contestou o acordo salarial realizado entre o sindicato e a Prefeitura e contou com apoio da população. Foto: Mídia Ninja

Mesmo com grande repercussão, Lesbaupin acredita que não há chances de se repetir em 2014 um movimento do mesmo tamanho. Os atuais protestos contra a realização ou as consequências trazidas pela Copa do Mundo, apesar de serem incentivados pelos acontecimentos de junho, não teriam a mesma dimensão. Ainda assim, a crítica aos gastos excessivos voltados para o interesse do setor privado parte da mesma insatisfação em relação à ausência de transparência e de consulta à população. “Os protestos de junho deixaram brechas para a tomada de consciência sobre falhas do governo. O Brasil certamente não é mais o mesmo depois das manifestações, mas aquele foi um momento excepcional que dificilmente se repetirá”, acredita.

Em relação às eleições, Lesbaupin acredita que as manifestações de junho trouxeram uma preocupação maior para o governo, mas que seu caráter e suas reivindicações, no entanto, não são contempladas pela oposição. “Havia uma grande aprovação popular que deixava o governo mais seguro, mas parte dela continua, já que quem foi para a rua não é, por exemplo, a família que recebe o Bolsa Família. É um governo que, querendo ou não, melhorou a condição de vida da população mais pobre e que conquistou muitos votos. A atual oposição não questiona fundamentalmente a política econômica desse governo e também não introduz os mesmos elementos de política social”.

Para Heudes Oliveira, integrante do Movimento Passe Livre, as manifestações também se inserem no contexto eleitoral de forma negativa, servindo aos candidatos como material para campanha eleitoral. A reação à apropriação das pautas por alguns candidatos é de reafirmar a necessidade de empoderamento e participação popular: “Muitos candidatos se aproveitam dizendo que vão abarcar as propostas exigidas em junho nas próximas eleições, mas a verdade é que, se a população não cobrar novamente, nada vai acontecer”.