Publicado em: 20 de janeiro de 2020

Seca prolongada no RS e falta de investimentos em políticas de produção de alimentos comprometem a alimentação de brasileiros em diversos estados

Por Rede Brasil Atual

A seca que está devastando lavouras de milho no Rio Grande do Sul e a falta de investimentos governamentais em políticas de produção de alimentos terão consequências graves sobre o abastecimento de carne, leite e do próprio grão e seus derivados em diversos estados brasileiros. O alerta é do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA).

A estiagem acompanha a crise financeira que se abate sobre as famílias do campo e da cidade nas regiões agrícolas. Uma situação que pode se agravar, segundo o coordenador do movimento, Frei Sérgio Görgen, com as  restrições do crédito rural, inacessível a muitos pequenos produtores, e os baixos preços pagos pelo leite, feijão, milho, fumo e trigo, ao passo que o custo de produção (adubos, sementes e óleo diesel, por exemplo) segue em elevação.

“Desde 2016 as políticas públicas de apoio vêm se desmilinguindo. A redução dos programas de assistência técnica, aquisição de alimentos e sementes são apontados como exemplos claros, mas ainda devem ser considerados a fragilização das ações que incentivavam a produção agroecológica, o crédito subsidiado e o apoio ao cooperativismo, que estão em fase de extinção”, disse Frei Sérgio.

Outro aspecto a ser levado em conta, segundo ele, é dificuldade de ação dos municípios, onde há recursos apenas para ações emergenciais, restringindo os serviços de máquinas e estradas.

Órgão oficial da agricultura no RS, a Emater/RS estima perdas no milho para silagem em mais de 35% e do milho-grão em mais de 25%. No entanto, camponeses vinculados ao MPA acreditam que os prejuízos sejam bem maiores. Isso porque a Emater trabalha com médias – e a seca pode afetar de maneira diferente as regiões e os agricultores.

“O certo é que para grande número de famílias as perdas são enormes. Conhecemos muitos casos em que a perda é praticamente total e ainda temos que considerar que as informações dos institutos de meteorologia não são animadoras, apontando para pelo menos mais um mês com pouca ou nenhuma chuva. A estiagem prejudicou a produtividade do milho safra e atrasou o plantio da safrinha, que está também comprometida”, disse a dirigente camponesa Vanderléia Chittó, de Progresso, ao coletivo de Comunicação do MPA no RS, que produziu uma série de reportagens sobre o tema.

O problema, porém, não afeta apenas o Rio Grande do Sul. E sim boa parte do país. Frei Sérgio considera que à explosão da demanda da China por carne brasileira, o dólar em alta, a falta de instrumentos públicos para a devida regulação soma-se a longa estiagem no sul do país, atingindo todas as cadeias produtivas.

A consequência desses fatores, segundo ele, elevaram a exportação do milho, cuja produção despencou com a seca diante de estoques insuficientes para abastecer o mercado interno. “Além de componente direto na dieta alimentar nacional, é a principal componente na formulação da ração de frangos, suínos e gado de leite, este último, através da silagem. Os efeitos serão sobre os preços de todos estes produtos e sobre o abastecimento. E prolongados. Escassez e inflação de alimentos à vista”.

(Foto: MPA)