Publicado em: 28 de julho de 2017

Reportagem especial conta como as polpas de frutas do Araguaia e produção de óleo de pequi do Povo Kĩsêdjê, no Xingu, são exemplos de valorização da sociobiodiversidade e dos saberes tradicionais da região. Assista também o segundo episódio do minidocumentário “Xingu, histórias dos produtos da floresta”.

Por Marina Yamaoka (texto) e Rogério Assis (fotos)

Cagaita, bacaba, mangaba, pequi, murici, buriti e araçá boi. Essas são apenas algumas das frutas nativas que são parte da rica biodiversidade da região de transição entre o Cerrado e a Amazônia, nas bacias dos rios Xingu e Araguaia. Presentes na alimentação, na cultura e na tradição de agricultores familiares e indígenas, essas espécies também se tornaram uma forma de geração de renda e de conservação e restauração da floresta. Óleos, castanhas, polpas e até artesanatos são produzidos a partir dessas espécies nativas que são valorizadas ao chegarem em mercados locais, regionais e nacionais.

Essas cadeias produtivas incentivam as plantações agroflorestais que ajudam a recuperar o passivo ambiental das áreas degradadas. Em alguns casos, como o de assentamentos rurais e Terras Indígenas, o fortalecimento dos produtos florestais também garante o acesso e a permanência dessas populações em seus territórios.

“Tradicionalmente, a região tem uma atividade pecuária e de monocultura muito forte em grandes fazendas. Se não há uma alternativa de renda para o pequeno produtor a tendência vai ser ele também pensar em desmatar ou, ainda, negociar sua terra e ir morar nas cidades, se tornando ainda mais vulnerável socialmente”, explica Ana Lúcia Sousa, coordenadora da Associação de Educação e Assistência Social Nossa Senhora da Assunção (ANSA).

Projetos como a Fábrica de Polpas Araguaia, em São Félix do Araguaia (MT), e o Hwĩn Mbê, óleo de Pequi do povo Kĩsêdjê, conseguem trazer uma alternativa econômica para agricultores familiares e indígenas ao mesmo tempo em que mostram o valor da floresta em pé em uma região de fronteira agropecuária, que vive a constante pressão da expansão da agricultura em grande escala.

Assista aqui o segundo episódio do minidocumentário “Xingu, histórias dos produtos da floresta”, com legendas em inglês, que apresenta o projeto de polpas de fruta do Araguaia e o óleo de pequi dos Kĩsêdjê:

Assista a versão com legendas em português:

Mangas espalhadas por toda a cidade

Eram os idos anos 2000 quando a ANSA começou a pensar e planejar a instalação de uma fábrica de beneficiamento de frutas. “Havia muita fruta na própria cidade e precisavamos aproveitá-las. No início trabalhávamos principalmente com manga”, lembra Ana. Não é difícil de entender o pensamento. Basta caminhar dois ou três quarteirões em São Félix do Araguaia e ver a quantidade de mangueiras espalhadas pela cidade. Ou ainda, tomar um café no quintal de um dos moradores da cidade e ter que tomar cuidado ao sentar na sombra de uma das árvores para não ser atingido por uma das frutas que caem constantemente.

Aos poucos, os moradores de São Félix passaram a coletar e entregar as mangas para a Fábrica de Polpas Araguaia, mas o caminho para que a fábrica chegasse ao que é hoje foi longo. “Em um primeiro momento, tivemos que lidar com dois desafios. Um, era que todos tinham mangueira perto de casa, então para quê iam comprar as polpas? A segunda questão era a falta de hábito de consumir suco natural. Em geral, as pessoas comiam as frutas e tomavam suco em pó”, explica Sousa.

Através de propagandas educativas, o incentivo do consumo de polpas naturais e a ampliação da variedade de espécies de frutas coletadas foi possível transformar o paladar da população e gerar renda para famílias da região. Hoje, os sucos da Fábrica de Polpas Araguaia fazem parte da merenda das escolas da região e cerca de 250 coletores, sendo 60 famílias do assentamento Dom Pedro, próximo à São Félix, são responsáveis por entregar todo ano quase 70 mil quilos de frutas de mais de 20 espécies diferentes que serão beneficiadas na fábrica.

Hospitalidade que se bebe

É inegociável. Em cada visita que se faz a um coletor tem que se tomar ao menos um copo de suco que é preparado com orgulho por saber que aquela polpa foi produzida com as frutas que dão nas árvores dos quintais e proximidades de suas casas. Dona Hilda e Seu Gabriel, por exemplo, coletam goiaba, caju, acerola, pequi e, claro, manga, e tem planos de plantar novas mudas e espécies para aumentar a quantidade de frutas que entregam e, consequentemente, o incremento na renda que recebem ao final de todo mês.

“A gente tem orgulho de tomar o suco da própria fruta e fica muito contente com o trabalho que fazemos”, conta Hilda. “A renda é muito boa e o dinheiro, apesar de suado, é gratificante. A gente criou nossos filhos com a venda das frutas”. Enquanto para os agricultores urbanos e periurbanos — que moram próximo ao município de São Félix — trata-se de uma forma complementar da renda familiar, para os agricultores dos assentamentos a coleta de frutas é uma verdadeira alternativa de atividade produtiva em suas terras, assim como a criação de gado ou outra plantação.

Dona Doca, moradora do P.A. Dom Pedro, elogia o suco de jaca que o neto faz enquanto aponta para os pés de acerola que tem em frente à sua casa e mostra o terreno em que ele está plantando outros pés de árvores frutíferas. “Antes a gente desperdiçava as frutas, deixava cair do pé e ficava aí mesmo. Agora a gente começou a colher e armazenar nos freezers para depois entregar para a fábrica. O que a gente puder catar, a gente cata”, ela relata, com a neta pequenina entrelaçada em suas pernas, que colhe as acerolas que estão mais embaixo do pé, na altura de seus olhos.

Bagaço transformado em floresta

Uma vez que as frutas são entregues na Fábrica de Polpas Araguaia e transformadas em polpa, os resíduos são aproveitados no Viveiro Araguaia. O bagaço pode ser utilizado como compostagem ou as sementes são utilizadas para gerar mudas que serão plantadas no assentamento. “Dessa forma, o ciclo se fecha”, explica Domingos Azevedo Neto, técnico da ANSA. “Os moradores do assentamento fornecem as frutas para a Fábrica, as sementes são aproveitadas no viveiro como mudas que irão retornar para o assentamento e virar novas árvores frutíferas”.

Os primeiros plantios no assentamento com as mudas do Viveiro foram realizados em 2006 e 2007. Azevedo não esconde o orgulho que sente ao ver que estas primeiras árvores já estão dando frutos. “É muito gratificante ver as famílias tendo frutas para comer ao mesmo tempo em que tem uma nova forma de renda, aumentam a produção de frutas e contribuem para o reflorestamento.”

Parte das sementes também é vendida para a Rede de Sementes do Xingu, apoiando outra iniciativa sustentável que valoriza a sociobiodiversidade da região e gera receita para pequenos produtores. [Leia a primeira reportagem especial sobre a Rede de Sementes]

No intervalo da aula, uma dose de saúde

Para Ana Lúcia, o trabalho da Fábrica de Polpas Araguaia mudou a vida dos agricultores familiares da região. “Além da renda que é essencial para eles, o fato de se alimentarem das frutas e de consumirem suco natural trouxe melhorias para a saúde deles. O cardápio deles melhorou”, explica. Os sucos naturais também passaram a fazer parte da rotina das crianças das escolas públicas da região.

Nina, Matildes e Sônia, responsáveis pela merenda na Escola Estadual Severiano Neves, relatam que no início foi difícil fazer os estudantes gostarem dos sucos. “Tivemos que inventar formas de fazê-los se interessar com músicas sobre alimentação saudável e projeto de horta orgânica, por exemplo”, conta Matildes. “Hoje, são eles que pedem suco na hora do lanche e que começam a educar os próprios pais sobre quais vitaminas são importantes e necessárias para se ter uma alimentação equilibrada.”

Hwĩn Mbê, óleo de Pequi do povo Kĩsêdjê

Não muito longe de São Félix do Araguaia, um pouco mais para o oeste, dentro da Terra Indígena Wawi colada ao Território Indígena do Xingu, está a aldeia Ngojwêrê, do povo Kĩsêdjê. Lá, a preocupação com a alimentação, com a saúde e a pressão do desmatamento incentivaram os indígenas a buscar uma alternativa econômica. Parte da culinária e da cultura tradicionais há séculos, o óleo de pequi passou a ser produzido na mini-usina construída na aldeia em 2011.

À estrutura da casa de madeira que conta com pia, torneiras e uma despolpadeira que ajudaram o trabalho a ganhar agilidade e volume de produção, aliam-se o conhecimento tradicional indígena e o antigo método de extração a frio que mantém o perfume, o sabor, a cor e outras propriedades da fruta preservadas no óleo.

“Quando instalamos o ar-condicionado, melhoramos a qualidade do óleo que se tornou mais transparente e preservou o cheiro do pequi“, conta Yaiku Suyá, diretor-executivo da Associação Indígena Kĩsêdjê. “Antigamente, as mulheres extraíam o óleo de madrugada, justamente por causa das temperaturas mais baixas.”

Durante a época do pequi, entre outubro e novembro, as frutas são coletadas em mutirão. Homens e mulheres se reúnem e enquanto alguns buscam em áreas próximas à aldeia, outros já vão recebendo e cortando o pequi, separando polpa e semente em grandes bacias de metal. No momento em que a casca verde é partida o amarelo exuberante do pequi salta aos olhos.

Parte das sementes é destinada para replantio e recuperação de áreas degradadas, outra parte é colocada em esteiras sob o sol. A castanha é extraída das sementes secas e as cascas vazias que restam são utilizadas para artesanato e adornos como chocalhos, usados amarrados aos tornozelos em festas, por exemplo.

Já a polpa do pequi é cozinhada para depois passar por uma despolpadeira que retira uma densa massa amarela. Esta é processada em uma batedeira na qual ocorre a flotação, ou seja, o óleo começa a flutuar e é retirado com cuias e armazenado em tambores para que possa decantar e ser envasilhado. Os tons de amarelo do pequi vão se transformando em cada etapa da produção do óleo, passando de uma cor muito viva dentro da fruta a tons alaranjados e ocre. Acompanhar a extração do óleo é uma experiência verdadeiramente sinestésica, a cada estágio é possível associar uma cor a um aroma, cada um mais delicioso do que o anterior.

Fazenda Ronkhô

Além de coletar o pequi para a extração do óleo, as castanhas também são aproveitadas na alimentação e as sementes são utilizadas para restaurar uma área degradada, hoje conhecida como a Fazenda Comunitária Ronkhô. Antes da Terra Indígena Wawi ser homologada, em 1998, a área era ocupada por seis fazendas de monocultura. Em 2016, os Kĩsêdjê alcançaram 60 hectares restaurados com pequi e, hoje, já colhem os frutos do primeiro plantio realizado há dez anos, um incentivo à produção do óleo e de outros produtos derivados.

Também foram plantados capim e outras árvores frutíferas nativas na Ronkhô. Dessa forma, os indígenas esperam desenvolver atividade pecuária para consumo próprio na aldeia e, potencialmente, para venda como uma outra forma de renda complementar. “O projeto é interessante pro povo Kĩsêdjê”, explica Yaiku. “Nós usamos o pequi para proteger a pele e nos alimentamos da polpa, do caldo e da castanha. Com a casca, fazemos chocalhos. E agora, além de aumentar a produção das frutas, futuramente vamos ter um pequeno rebanho para a comunidade. O branco diz que não produzimos, mas a verdade é que fazemos do nosso jeito, com a floresta em pé.”

Segundo Nhokombiri Suyá, a ideia é criar cerca de 300 cabeças de gado. “Não pensamos em ter muito gado porque não precisamos, a ideia é ter o suficiente para nossa demanda e conciliar com o plantio do pequi”, ele conta. Outra preocupação dos Kĩsêdjê é recuperar a mata ciliar ao redor dos igarapés e dos córregos que foi desmatada pelos antigos fazendeiros. “Nós entendemos a importância de deixar essas matas crescerem para evitar o assoreamento e a morte dos rios. Estamos recuperando a floresta para recuperar a água”, explica Nhokombiri.

Do Ngojwêrê ao Mercado de Pinheiros, em São Paulo

O óleo de pequi do povo Kĩsêdjê passa a fazer parte do prato dos brasileiros. Direto da aldeia Ngojwêrê, agora pode ser encontrado no Mercado de Pinheiros e na gastronomia de chefes de cozinha como Alex Atala. Durante evento de lançamento do óleo, em dezembro de 2016, Atala não apenas ressaltou a importância de valorizar um produto feito de forma comunitária na aldeia e que ajuda a proteger a floresta, mas também se ateve à qualidade do sabor e do aroma do óleo.

Incentivar cadeias de produção como a do óleo de pequi significa valorizar os saberes de povos como o Kĩsêdjê, a sociobiodiversidade da Amazônia e, ainda propiciar uma alternativa econômica que conserva a floresta e os rios.

O minidocumentário “Xingu, histórias dos produtos da floresta”, produzido no âmbito do projeto “Sociobiodiversidade Produtiva no Xingu”, foi apoiado pelo Fundo Amazônia, gerido pelo Banco Nacional de Desenvolvimento (BNDES).

Fonte: Instituto Socioambiental (ISA)