Publicado em: 21 de outubro de 2019

‘Um peixe contaminado com mercúrio na minha aldeia chega à mesa dos belenenses e vai contaminá-los se os rios não tiverem preservados. Então, Amazônia vai além da mata, porque ela é vida’, ressalta a indígena Eliene Rodrigues Putira Sacuena

Por Edna Nunes, da Cardume(*)

Até o dia 27 de outubro, 250 bispos da Igreja Católica e representantes da Organização das Nações Unidas (ONU) participam no Vaticano, em Roma, do Sínodo dos Bispos para a Amazônia, assembleia de todo o episcopado do mundo que, presidida pelo Papa Francisco, se reúne para tratar de assuntos ou problemas da igreja. As pautas são diversas e revelam um despertar da igreja ao “grito” dos excluídos de uma região que tem sofrido um retrocesso em relação às políticas públicas para a garantia de direitos ambientais, territoriais, culturais e, sobretudo, à vida. A exploração mineral, o avanço da fronteira agrícola e a suspensão da demarcação de terras indígenas são propostas levantadas pelo governo de Jair Bolsonaro que têm recebido reação mundial. Ao todo, 11 bispos da Amazônia foram convocados pelo pontífice e a resistência da população indígena para a garantia de seus direitos faz parte do diálogo homogêneo do episcopado local.

O Pará e o Amazonas são os maiores estados brasileiros da Região Norte, com as terras amazonenses concentrando a maior população indígena do Brasil. Segundo o censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 2010, os mais de 240 povos indígenas identificados correspondem a 896.917 pessoas. Destas, 324.834 estão nas cidades e 572.083 em áreas rurais, o que significa aproximadamente 0,47% da população total do país.

Os sacerdotes que se encontram reunidos com o Papa Francisco respondem por todos brasileiros que, assim como a comunidade indígena, sente-se desvalorizada na atual conjuntura do país. “Há uma grande expectativa de todos os segmentos da Amazônia em relação ao sínodo, sobretudo, dos povos indígenas em ter e receber, através da assembleia dos bispos, respostas às suas demandas, como mudar um pouco a estrutura da Igreja, para que encontre uma nova forma de evangelizar, atendendo aos lugares mais longínquos”, enfatiza Haroldo Pinto do Espírito Santo, coordenador do Centro Indigenista Missionário (CIMI) Norte II – Pará e Amapá, .

Ele lamenta acompanhar, atualmente, a destruição dos territórios indígenas, pois sofrem ataques à sua própria autonomia por meio de um processo contínuo de descumprimento da Carta Magna. Na opinião de Haroldo, intensificaram a violação dos direitos dos índios, tendo como foco a destituição do artigo 231 da Constituição Federal de 1988, que assegura aos povos originários a demarcação das terras que tradicionalmente ocupam, o que abriu caminho para a exploração agrária e agrícola, a expropriação e esbulho da terra, a expansão minerária, madeireira e hidráulica e a cobiça pelos recursos ambiental.

“Então, o governo eleito não admite que na CF, que ele, Bolsonaro, jurou defender, estejam expressos a diferença étnica, a terra demarcada e respeitada e o fato dessas populações serem sujeitos de direitos”, desabafa. Por tudo isso, o coordenador do CIMI Norte II entende o Sínodo da Amazônia como resistência de luta do indígena, porque será um elemento a mais em sua organização interna de como se organizar e articular em todos os aspectos.

Pré-Sínodo 

A indígena Eliene Rodrigues Putira Sacuena, da etnia Baré (Rio Negro-AM) e assessora da Associação dos Estudantes dos povos indígenas da Universidade Federal do Pará (UFPA), informa que os indígenas têm acompanhado as discussões do Sínodo da Amazônia e contribuiu com uma série de propostas durante o pré-sínodo, realizado no período de 28 a 30 de agosto, na Casa de Retiro Monte Tabor, no Distrito de Icoaraci, em Belém, com a presença de várias lideranças, inclusive religiosos, com destaque ao Pe. Justino Rezende, indígena do Rio Negro, multiplicador da assembleia dos bispos.

A ideia com a reunião dos povos indígenas em agosto foi para deixar claro que a Amazônia não é só a floresta e animas, mas também seres humanos que vivem na região. “Belém é uma capital da Amazônia e ninguém a desenha como Amazônia, porque esquece que os centros urbanos fazem parte dessa região. Por exemplo, um peixe contaminado com mercúrio na minha aldeia chega à mesa dos belenenses e vai contaminá-los se os rios não tiverem preservados. Então, Amazônia vai além da mata, porque ela é vida”, ressalta.

Enquanto liderança indígena, a jovem comenta que espera, a partir do Sínodo da Amazônia, um apoio de fato, não somente a nível de Brasil, mas mundial de suas reivindicações, com propostas concretas para construir uma defesa forte em prol da região, para as lideranças enquanto povos indígenas, da floresta, “que é uma árvore e, consequentemente, é casa”.

Por esse motivo, Putira revela que hoje e futuramente as principais lutas são assegurar as lideranças para que não sejam mortas; garantir o território indígena por estar além de demarcação de terras, por ser ancestralidade e espiritualidade; e saúde e educação, pelo motivo dos índios estarem adoecendo. “Com isso, o nosso movimento hoje é muito maior, porque precisamos nos adequar à internet para dizer o que está acontecendo na Amazônia, para dizermos o que a Amazônia significa para nós”, conclui.

(Foto: CNBB)

(*)CARDUME – Comunicação em Defesa de Direitos é uma rede que reúne organizações e movimentos da sociedade civil para ações articuladas de comunicação que potencializem a promoção e defesa de direitos e bens comuns.