Publicado em: 10 de setembro de 2020
Luciana, Mariana, Eduardo e Acauã. Fotos: Reprodução/Mídias Sociais

Entre julho e agosto, a hashtag #VerificaPCD movimentou redes sociais ao levantar debates sobre reconhecimento e capacitismo

Plataformas digitais têm sido aliadas na expansão de discussões a respeito de grupos minoritários. Perfis, comunidades e hashtags em redes sociais movimentam o debate para além dos integrantes dessas minorias e convidam à reflexão dentro e fora do ambiente virtual.

 

Nos meses de julho e agosto, a hashtag #VerificaPCD foi utilizada no Twitter com o objetivo de levantar o debate sobre acessibilidade no mundo virtual e pedir a verificação de contas de criadores de conteúdo que possuem algum tipo de deficiência.

Segundo o Censo de 2010 realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), aproximadamente 45 milhões de brasileiros possuem algum tipo de deficiência – cerca de 24% da população do País. O número expressivo não é acompanhado da inclusão dos mesmos no mercado de trabalho ou nas universidades.

De acordo com dados da Relação Anual de Informações Sociais (RAIS) de 2018, apenas 1% dos profissionais com emprego formal no País são pessoas com deficiência, cerca de 486 mil postos de trabalho. Nas universidades, somente 43.633 matrículas realizadas em cursos de graduação – 0,52% do total – são de pessoas com deficiência ou transtornos globais do desenvolvimento, conforme informações do Censo da Educação Superior de 2018, divulgado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP).

Iniciada pelo usuário Charlie_artist no Twitter, a hashtag #VerificaPCD funcionou como uma corrente: indicava-se produtores de conteúdo PCDs ao marcá-los juntamente com #VerificaPCD, e aqueles que fossem marcados indicavam outros usuários sucessivamente. A hashtag entrou para os assuntos mais comentados da plataforma.

Mariana Torquato, catarinense de 28 anos, foi uma das criadoras verificadas pelo Twitter. Antes da ação, ela contava com cerca de 5 mil seguidores na plataforma, hoje são mais de 12 mil. A criadora possui um canal no YouTube chamado “Vai Uma Mãozinha Aí?”, que atualmente é o maior canal sobre deficiência no Brasil.

“Eu comecei a criar conteúdo para internet por conta da falta de representatividade e de uma comunidade das pessoas com deficiência”, Mariana compartilha. Ela possui deficiência física desde o nascimento.

O estudante Acauã Pozino, 19 anos, também participou da ação. Ele já compartilhava sua vivência como pessoa com deficiência visual e militava pela causa, mas depois da hashtag, houve uma preocupação maior em organizar esse conteúdo.

Embora não tenha sido verificado, diversas pessoas começaram a indicar e acompanhar seu perfil, e Acauã aproveita o espaço que ganhou para falar mais sobre o movimento. “Eu sempre repito que a nossa resistência é uma guerrilha do berço ao túmulo, então a gente escolhe apenas falar mais ativamente sobre isso ou não. Eu sou da opinião de que, se a gente não se movimentar, as coisas que nos oprimem não vão se mover de cima de nós”.

 

Militância PCD e interseccionalidade

“Falar sobre ser uma pessoa LGBT, para mim, é falar sobre ser uma pessoa com deficiência”, aponta Eduardo Victor, 20 anos.

O carioca produz conteúdo para diversas redes sociais e foi verificado pelo Twitter depois da ação #VerificaPCD. Seu interesse em criar conteúdo surgiu da falta de identificação nas redes: “As coisas nascem do nossos pequenos incômodos. Eu não via ninguém como eu na internet”.

Victor explica que é difícil se sentir ouvido sendo uma pessoa com deficiência motora e LGBT.

“Digo que eu saí do armário duas vezes. Sou uma pessoa que tem uma deficiência visível, mas eu tenho uma passabilidade”.

Ele compartilha que demorou para entender como o capacitismo (discriminação praticada contra a pessoa com deficiência) o atingia, uma vez que achava que os processos de exclusão com os quais sofria eram unicamente por ser uma pessoa afeminada: “Por muito tempo eu fiquei nesse não-lugar, e estar na internet, para mim, é poder contar minha história e mostrar que pessoas como eu existem. O poder da fala me salvou”.

Luciana Viegas, 26 anos, já trabalhava com educação inclusiva por ser professora, mas o aprofundamento no assunto se deu com o diagnóstico de seu filho autista. Posteriormente, ela recebeu o diagnóstico tardio de autismo.

“Como eu pesquisava muito sobre o assunto por conta do meu filho, percebi que era uma pauta muito branca. Eu sou mãe preta, de criança autista, e as mães brancas não conversam comigo na totalidade”,  diz.

A professora debate o capacitismo com hiperfoco em raça e explica que os PCDs negros ainda estão lutando por coisas básicas.

“A pessoa preta autista é julgada pelo seguinte raciocínio: ‘você é deficiente, mas eu não tenho dó, você ainda é preto’. Os PCDs brancos pedem autonomia e liberdade. Na hora de um conflito, a primeira coisa que enxergam nos pretos é a cor e tratam como marginal”. Ela não foi verificada pela plataforma.

Eduardo e Luciana promovem a interseccionalidade em seus discursos. O criador carioca aponta que “assim como a sociedade é capacitista, o movimento LGBT também vai ser. Pessoas com deficiência não são lembradas no movimento LGBT”. Já a professora está à frente do movimento Black Disabled Lives Matter (em português, “vidas negras com deficiência importam”), articulando o debate do capacitismo juntamente com questões raciais.

Acessibilidade antes e depois da hashtag

Mariana Torquato compartilha que, embora o espaço virtual seja mais acessível que o físico, acessibilidade e inclusão precisam ser uma escolha diária: “Nós, PCDs, merecemos ter o mesmo acesso ao conteúdo que as pessoas sem deficiência têm”. Além disso, muitos dos debates que se iniciaram com a hashtag, sobre inclusão, acessibilidade e capacitismo, ainda são superficiais e Mariana reforça a necessidade de continuá-los para além da ação #VerificaPCD.

Luciana Viegas aponta que todos têm direito à informação, portanto, é obrigação da sociedade como um todo exigir acessibilidade. Por isso, cobranças da presença de audiodescrição e legendas nos conteúdos de plataformas e outros criadores, por exemplo, estão se tornando cada vez mais frequentes.

Segundo Eduardo, o ambiente virtual ainda não é totalmente acessível, “mas isso não quer dizer que a gente não precise fazer nada. A nossa sociedade não foi criada para poder atender à demanda de pessoas com deficiência, porque historicamente nós não éramos vistos nem como seres humanos”. Ele completa dizendo que cobrar a verificação do Twitter é potencializar e dar a certificação de que aquele conteúdo é relevante para alguém.

“Na internet, todo mundo está falando de tudo. É muito mais difícil confiar no que se lê. O selo de verificação mostra que nós temos propriedade para falar sobre certa área, e é importante que nós tenhamos pessoas verificadas no máximo de áreas possíveis”, reforça Acauã.

Mariana aponta que a hashtag foi um grande exemplo de como pessoas com deficiência, quando unidas, têm força. Ela espera que possam ter novas mobilizações, pois diversos criadores ainda não foram verificados. “A gente precisa da voz dessas pessoas porque elas merecem ser ouvidas. Elas foram silenciadas por muito tempo”, afirma.

*Malu Bassan é estagiária e escreveu esse texto sob a supervisão do editor Alisson Matos